Aconteceu uma situação semelhante com os avós de um conhecido. Na verdade, é bem provável que todos já tenham ouvido essa história, já que parece ser alguma daquelas lendas populares que são contadas por velhinhos de rostos simpáticos aos netos completamente atentos. Porém, apesar de parecer uma fábula, tudo aconteceu mesmo, e foi ali na cidade de Natal. Quem quiser, pode ir lá perguntar ao Seu Pedro, que continua morando lá em Natal, e que pode confirmar tudo.
Inicialmente, vale dizer, apenas para situar o senhor leitor, que esta história trata de um casal de adolescentes. Ou Melhor, de um casal. Um casal que se amava muito e queria viver a vida inteira junto. Não que isto seja um artifício para tornar a história mais interessante, mas esta história trata de um casal.
Pausa interjeitiva:”Isso não define muita coisa, afinal são tantas as histórias de “um casal”. Vou além. É difícil uma história que não seja de um casal. É mais fácil tornar uma história interessante quando há um grande amor em jogo. Imaginem, os senhores, o filme Titanic sem Jack gritando por Rose. Assim, esta história pode parecer um pouco clichê em alguns momentos
Pois bem. Este casal desta história se conheceu muito cedo, há muito tempo, e logo descobriu que existia uma química incontrolável entre eles. Desde a primeira vez que Ele viu Ela suas pernas tremeram como terremotos. O amor era tão grande que Ela até escrevia pequenas frases de amor no seus cadernos de colégio, sob chacotas freqüentes de suas amigas, que também faziam o mesmo. A Joana, por obséquio, não a deixava em paz.
Não ironicamente, neste momento da história aparece um empecilho mais que justo para que eles não fiquem juntos. Que graça teria uma história em que mocinho e mocinha ficassem juntos logo no primeiro momento. Não, senhor leitor. Gostaria de dizer que um asteróide caiu e desruiiu a terra e que exatamente por isso eles não ficaram juntos. Mas algo muito pior aconteceu. Aconteceu não, já tinha acontecido há mais de um século.
Sabiam que aquilo não era certo, pois suas famílias não apoiavam aquela relação. Nunca alguém da Família Dantas tinha sequer trocado palavras com alguém da família Teixeira.. Rixa antiga, desde os tempos Jagunços. Na verdade, o tataravô d´Ele, o Senhor Arnaldo Dantas, tomou para si a mulher do seu ‘cumpade’, o destemido Geovaldo Bala-Cortada, numa situação que de tão escabrosa não gostaria de ter que compartilhar, mas minha busca pela verdade, imparcialidade e ética não me permitem silenciar. Saiba o senhor que naqueles tempos, a fama do Sr. Geovaldo Bal-Cortada corria todo o sertão. Desde o sul da Bahia, até o mais alto Maranhão, este “cabra” era temido por homens e mulheres, cachorros e gatos. Não se podia falar seu nome que os pais mandavam suas crianças pro quarto e fechavam as janelas de suas casas. Desde então as famílias criaram em ódio recíproco e viveram em guerra até este momento da história.
Por esta razão, às vezes, queriam se comparar a Romeu e Julieta ou a Píramo e Tisbe, mas era pieguice bastante. Ficaram muito tempo assim. Os dois, se amando e se tosando. Não sabiam bem o que fazer com aquele amor impossível. Achavam que por mais que tudo aquilo fosse muito forte, era uma relação que não valia à pena, fadada ao fracasso.
Assim, viviam os dois pelos cantos, desolados. Não sabiam mais o que fazer, pois o sentimento era muito grande. Por outro lado os empecilhos pareciam infinitamente maiores. Quando se encontravam, às escondidas, ela, quase sussurrando perguntava,
- Será que isto tudo vale à pena?.
Ele logo pensava em responder “tudo vale à pena quando a alma não é pequena”, mas lembrava-se de que ela não gostava de frases prontas.
Então, com altivez, respondia quase que cinematograficamente:
- Tudo vale a pena por um grande amor, Amor!
Os dois, nos seus momentos solitários, quando conversavam consigo mesmos, como que perguntando ao espelho mágico, se questionavam por que as noites pareciam tão longas. Ficavam a derramar rios de lágrimas que pioravam um pouco aquela tortura psicológica.
Quando, como num último suspiro, tentaram ficar juntos, o destino afogou seus sonhos. Aos 17 anos, aquela garota sofreu uma grande perda, talvez, a maior de sua vida: não O teria mais presente todos os dias. Ele, obviamente contrariado, foi obrigado a se mudar para a cidade de Recife.
Para Ele, aquele foi um dos maiores suplícios da vida, senão o maior. Seu pai foi transferido a pedido da Administração Militar – já que pertencia ao ativo das forças-, e com o fim da guerra, as Forças Armadas foram realocadas. Teve que se mudar às pressas, já que o trem que levaria os ativos da Aeronáutica sairia no dia seguinte. D’Ela, só conseguiu levar um beijo, muitas saudades e um sapato velho.
Pausa interjeitiva: Como alguém vai embora de uma cidade e leva apenas eu sapato velho? Puro Fetiche nos Clichês!”
Quando chegou à Veneza Brasileira, sua vida virou um martírio interminável. Viveu quase três anos em que todos os dias pareciam vésperas de execução de sentença. O carrasco da máscara preta virou seu confidente. Mas como a vida tinha que seguir, guardou tudo que se referia a Ela, inclusive seus sentimentos, numa caixa de sapato e a jogou no sótão. Aliás, jogaria, mas lembrou-se que sótãos são aposentos clichês de filmes americanos, e empurrou pos entulhos com o pé direito para baixo da cama.
O tempo passou muito rápido e para encurtar a história e facilitar o entendimento, logo uma legenda cor de amarelo cáqui apareceu na parte inferior do vídeo com os seguintes dizeres: “ DEZ ANOS DEPOIS...”
Ele formou-se em Engenharia em 1956 e andava procurando emprego. Ela estava quase se formando em Jornalismo.
Logo, surgiu uma ótima oportunidade para uma seleção de emprego em São Paulo. Ele não pensou duas vezes e foi tentar esta chance, já que nada o prendia naquela cidade.
Concomitantemente e coincidentemente, ela recebeu uma passagem para participar de um congresso na mesma cidade. Naquela época, São Paulo não era tão grande como hoje, mas já seria muita sorte os dois se encontrarem exatamente naquela metrópole. E foram os dois na quinta feira pensando apenas em seus objetivos profissionais. A passagem de volta estava marcada para a segunda-feira pela manhã.
Ele, ao chegar na Big Aplle brasileira foi direto para o Hotel. “Apartamento 301” – disse o recepcionista. Ele, como só faria prova no sábado pela manhã, resolveu experimentar os encantos daquela cidade cosmopolita. Aproveitou a noite da sexta e dirigiu-se a um daqueles famosos bordéis que se espalhavam pela Rua Augusta. Foi sozinho, já que queria mesmo era passear. Augusto, seu único amigo na cidade, prometeu-lhe que sairia com ele no sábado à noite, então a sexta pertencia a ele e ao Mundo.
Quando chegou no “Casa Vermelha”, pediu uma dose de whisky apenas para se sentir mais relaxado, ficou observando e comentou consigo mesmo “Pouxa vida, quanta mulher bonita num lugar só”. Pediu outra dose de whisky e olhou para a decoração meio luminosa meio decadente. Outra, e observou os movimentos frenéticos das dançarinas. Mais uma, e deixou dinheiro na calcinha de uma delas. Na seguinte, não sabia muito bem onde estava. Na última dose... nada!
E acordou no sábado pela manhã. Faria prova neste mesmo dia com a maior ressaca da sua vida. Reclamava de tudo. A cada passo que dava seu cérebro, que parecia ter diminuído, balançava dentro do seu crânio. Cogitou a possibilidade de desistir da prova e dormir mais um pouco. Tinha certeza que aquele seria o pior dia de sua vida...
Ela já sabia que congressos de jornalismo não se prestavam só às palestras, mas isso não a impediria de tomar maior proveito daquelas aulas. Assim comprometeu-se a ir todos os dias às palestras pela manhã. Estava completamente excitada com a possibilidade de entrar em contato com o que havia mais no new jounalism. Naquela sexta-feira acordou cedíssimo, dirigiu-se ao auditório e anotou cada espirro dos palestrantes.
Neste mesmo dia à noite, foi convidada a uma daquelas festas organizadas dentro das próprias faculdades. Decidiu ir apenas para conseguir novos contatos no meio jornalístico. Todos os seus amigos usavam drogas, mas ela sempre foi uma garota centrada e não se perderia de seus objetivos.
Não se sabe por que, mas decidiu experimentar um pouco de vinho, talvez uma taça. Talvez duas. Talvez uma garrafa. Talvez duas. Já um pouco acima de seu estado normal, decidiu fumar um pouco. Mas não fumou um pouco. Lembra-se de dois flashes: 1. “Ela vai precisar de glicose”. 2. Sua amiga Joana perguntando “Isso... É esse o nome dela, qual o número do quarto?”.
Levantou-se de uma vez com o toque do despertador e tomou um banho de 45 minutos. Saiu correndo para a sua palestra. Olhando para a chave observou que seu apartamento era o 302.
Por ironia do destino – ou não -, abriram as portas ao mesmo tempo. Ele ainda estava limpando os olhos enquanto encaixava a chave na fechadura. Levantaram os olhos ao mesmo tempo. Fitaram-se durante alguns minutos. Durante vários minutos. Era muito improvável. Ela deu um pequeno sorriso e baixou o olhar, com aquela mesma cara de tímida que fazia aos 13 anos. Ele entendeu bem o recado. Perguntou-lhe o nome apenas para confirmar. Ela respondeu:
- Você não está me reconhecendo? Sou eu, a.... – e foi interrompida por um sorrateiro e inesperado beijo.
Convidou-a para entrar no quarto às 8 da manhã do sábado. E só saíram na segunda pela manhã. Ele esqueceu da prova. Ela da palestra. Eles esqueceram tudo. E se amaram durante Dez anos perdidos naqueles dois dias.
Quando conseguiram largar as bocas, Ela perguntou:
“Você acha possível que fiquemos juntos? Você está noivo!”
Ele, como qualquer boa história clichê que repete conceitos no começo e no fim, respondeu, desta vez com um breve sorriso no canto da boca:
- Tudo vale a pena por um grande amor, Amor!
Esta história terminaria perfeitamente se eles dois voltassem no mesmo avião e vivessem juntos, porém, como uma boa história de amor moderna, as coisas não terminariam sem uma tragédia à grega.
Vieram juntos na mesma aeronave até Recife, onde ela pararia apenas para fazer escala. Sem nenhuma palavra, deram um beijo ardente e ela seguiu para Natal. Depois disso longos anos se passaram.
Soube-se depois, através o próprio Seu Pedro, que os dois se casaram –obviamente com outras pessoas - e viveram vários anos com seus parceiros que consideravam os substitutos daquele grande amor que se perdeu no passado. Ele, nunca contou a nenhum dos grandes amigos que fez em Recife que pensava todos os dias naquela mulher. Apenas achava que nem a reconheceria se a encontrasse depois de tanto tempo. Saía escondidinho nos dias de semana e, quando encontrava os velhos amigos, trocavam algumas bulhufas, quase sempre tentando enganar a frustração de ter deixado passar o grande amor. Chegava em casa bêbado e vomitava lágrimas.
Ela não. Mulher é sensitiva mesmo. Tinha certeza que se o encontrasse, o reconheceria. Quando todos em sua casa iam dormir, não fazia como ele. Ela não bebia nada, mas quase sempre ficava ainda mais bêbada que ele, por saber a besteira que tinha feito em deixar um grande amor. E chorava como se vomitasse.