Wednesday, April 25, 2007

Um pouco sobre o nome deste espaço! ( e a Mercearia Thierry!))

Uma antiga namorada me indicou um dicionário na Internet: Priberam. Até hoje eu uso este dicionário quando não encontro um daqueles calhamaços por perto, pois não conheço coisa melhor na rede. Mas nunca confiei muito em dicionário de Internet, sobretudo esse, que é língua portuguesa de Portugal. Todo mundo sabe que o português que se fala lá nada tem a ver com o que se fala aqui. Além disso, suspeito que ela nem tinha tanta afeição por mim, pois me indicou um dicionário meio capenga. É de comezinha sabença que pessoas que indicam dicionários capengas não se amam. É mesmo uma prova de amor.

Razão pela qual eu sempre prefiro recorrer ao dicionário tradicional. E gosto daqueles grandões. Duvido que um daqueles “MINI-LUFT” que eu levava para o colegial contenha a expressão “dentelária-da-china” - que nem sei o que é, mas é bom saber que tem. Aqui, de onde escrevo estes apontamentos, tem um destes clássicos Aurélios, que é recorrentemente utilizado.
Vamos à interpretação deste nome:

Segundo – S. m. Unidade de medida de tempo no Sistema Internacional, igual à duração de 9 192 631 770 vezes o período de determinada radiação emitida, no seu estado fundamental, por um dos isótopo do Césio (o Nuclídeo Césio 133).

ADENDO: Aqui perto da minha casa tem uma mercearia: “A mercearia do Thierry” – comandada por um Francês que é mais cearense e mais bruto que o Seu Lunga. Lá no Thierry tem tudo. O cabra compra até ração pra râmister, se quiser.

Voltando. Primeiro eu queria saber onde um camarada conseguiu um isótopo de Césio. Imagino que hajam outros nuclídeos de Césio lá no Thierry, mas não o Nuclídeo Césio 133, que é dificílimo de encontrar. Se eu conseguisse um isótopo de Césio, misturaria com Vodka para ver o que dava.

Outra dúvida que tenho é como alguém conseguiu contar isso aí tudinho num isótopo de Césio. Se vocês conhecerem alguém que tenha a astúcia de contar todo esse montante, me avisem, pois empresariá-lo-ei para ser contador na NASA – como diria o chatíssimo professor Gouveia – e não terei mais que tentar ganhar a vida sendo músico, funcionário público e escritor.

Porém, aqui, neste caso, “segundo” quer dizer: “tire pelo menos um pouco do seu dia para abstrair de toda essa correria que nos rodeia. Leia um pouco sobre um assunto que lhe interessa. Procure saber sobre mitologia. OU, se possível, entre no www.segundodeabstracao.blogspot.com e, se gostar, indique aos seus amigos. Se não gostar, indique aos inimigos. (esta frase é repetida constantemente em salas de Teatro por todo Brasil, mas eu a roubei do Eri Johnson).

Já Abstração...”2. Filos.: ato de separar mentalmente um ou mais elementos da totalidade complexa (coisa, representação, fato) os quais só mentalmente podem subsistir fora dessa totalidade”. Mas ainda tem mais a ver este outro sentido: “4. Estado de alheamento do espírito; enleio; devaneio”

Eu queria mesmo que fosse entendido como “desligamento, esquecimento total do ambiente conturbado; entrada em um mundo paralelo onde as coisas da vida são observadas sem mistério; onde há graça em situações simples...”

Já abstraiu hoje?

P.S: Informo que este site ganha mais um leitor. Na verdade, uma leitora. Uma otima leitora. Minha amiga Priscila. Agora eu já perdi as contas de quantos leitora tenho. mas devo estar chegando próximo de cinco.

Monday, April 23, 2007

DIVAGAÇÕES DE JEMERSON E ELISE, MEUS AJUDANTES

A.S.: Eu gosto de jogar idéias rápidas e conectadas. Tudo bem, às vezes, nem tão conectadas. Mas acho muito feio quando se escreve “ e aí você pensa...” ou “é quando você olha pra vida e diz...”, assim, o usar o termo “você” meio indistintamente. Por isso, desta vez, sempre vou usar o termo Jemerson, quando quero dizer “você”. Assim fica mais geral. Jemerson, a propósito, é o nome do meu Copo Grande. É o marido de Elise ( A Taça) que me acompanha agora nestas letras.

Essa semana, tive o grande e quase inestimável prazer de receber dois queridos amigos de Recife na minha nova terra: Fortaleza. Está se tornando um hábito cada vez mais freqüente os recifenses virem para cá, para a minha morada, degustar dos prazeres desta terra Fortal. É quase sempre bom ter a casa cheia de visitas, com seus cacarecos e maneiras estranhas. Desta vez foi ótimo. Teve Mucuripe. Teve samba, teve samba e teve samba: ABRASPAS para a alegria dos tamborins da minha amiga Taís Costa FECHASPAS.

Porém o título de melhor momento do fim de semana fica para uma quase silenciosa e quase bucólica manhã que tive com Natasha enquanto Henrique dormia. Manhã de poucas palavras, mas de muita paz. Conversas bem lentas. Ótima companhia do chá preto!

Nestas visitas passei a observar que são inevitáveis as comparações. O meu pai, na praia, diz “então aqui é onde as pessoas vem. É o acaiaca de lá”. Henrique fez uma constatação que só ele é capaz: “aqui Fortaleza tem mais Caminhão-Pipa que em Recife”. Meu Jeová, quem para pra analisar a quantidade de caminhões-pipa de uma cidade?

Natasha está por um fio de cabelo de sapo para vir morar aqui. Já tinha vindo, mas ficou encantada de novo. Ficou Reencantada (aproveitando a chance pra criar neologismos). Inclusive - só por que este parágrafo ficou muito pequeno – Ontem foi aniversário dela. Meus parabéns!

Turista tem isso né? Acha tudo lindo. Mas Fortaleza tem suas Belezas e suas Mazelas como qualquer outra capital. A violência é crescente aqui, tendenciosa ao Caos, como em Recife. Os recifenses pensam que Fortaleza é como Natal, uma cidade tranqüiiiila, onde os pássaros cantam e as pessoas conversam baixinho em cadeiras nas frentes das suas casas – quase um comercial do MARACUJINA. A situação de Fortaleza, definitivamente, não é essa, afinal, nem Natal é mais como Natal.

Quando Jemerson vem para morar numa cidade nova, chega e parece turista. Jemerson, por exemplo, era louco pra conhecer “o cruzamento da Avenida Ipiranga com a avenida São João”, mesmo que Elise tenha dito que nada tem de graça e que só fica bonito em música mesmo. Jemerson vai conhecendo aos poucos a nova cidade. Estranhamente, escolhe para morar um ponto onde tivesse que passar obrigatoriamente por aquele cruzamento todos os dias, e das 10 primeiras vezes delira quando passa por ele. Abre um cerveja gelada e fica no carro, sozinho, aparentando estar sorrindo – quando na verdade está gargalhando, por dentro – de tanta alegria. Nas 10 vezes seguintes, olha com um pouco de alegria e um sorriso meio murcho de canto de boca, quase dizendo “eu alcancei um sonho”.

Daí em diante Jemerson vai se acostumando com a cidade e deixando de observar os pequenos charmes e a metrópole tão sonhada vai perdendo as graças.

Jemerson se muda novamente, louco pela Torre Eiffel, apesar de Elise tê-lo dito que prefere a Torre da Antena de Brasília. Mas só acha graça nas 5 primeiras vezes. Depois você se muda novamente e olha para as Cataratas do Niagara só de relance – não precisa dizer que Elise o advertiu de Foz do Iguaçu.

As novas cidades perdem a graça. Até que chega um momento em que o mundo é pequeno para Jemerson e nada mais faz sentido. Chega em uma nova cidade e tudo é velho!

Eu fico pensando que a vida é uma bela viagem. Não creio em espiritismo, não creio em catolicismo, não creio em budismo. Não creio em nada. Mas creio nesta bela viagem. Não penso em descobrir para onde vamos. Teve gente que perdeu a vida inteira querendo saber para onde ia e esqueceu de observar onde estava. Perdeu a noção de tempo e não olhou para o Big Ben quando deveria.

Acho que as pessoas não podem deixar de ser turistas na vida. De olhar a vida como um lugar novo, cheio de coisas para serem descobertas. Cheio de novas pessoas querendo fazer o bem. Claro, que nem tudo isso é verdade. Mas o erro está em duvidar de tudo. A vida começa a perder a graça quando Jemerson não se dá o direito de ajudar uma Senhora na rua por que o risco de assalto é tão grande que não se pode parar.

Conclusão: Seja sempre um turista!

P.S.: Não sei se existe a expressão Ante.Scriptum (A.S), mas se não existia, agora existe.

P.S2.: Usei Jemerson como um exemplo, mas aposto que Jemerson, o meu Copo, pararia para ajudar um Bule velho na rua.

Wednesday, April 18, 2007

Escolha seu Grupo (de quem lê isso aqui e de quem não lê)

Incrível como eu , vez por outra volto a ser fã de coisas que não leio há tempos.É o caso de Veríssimo, por exemplo. Quem me vê falando dele, pensa que eu estou falando do Paulo Coelho: sempre dizendo que já enjoei, que ele não é capaz de criar nada novo, etc... Mas sempre queimo minha língua e volto a lê-lo.
Ontem voltei a ler Samarone e outros autores/escritores que descrevem o cotidiano de uma maneira suigeneris. Permanece a mesma qualidade. Tenho a impressão que nem todo mundo é muito adepto do jeito dele de escrever... Isso por que, normalmente, quanto à leiturabilidade temos 3 classificações de pessoas, quais sejam:Grupo 1: Leitura esporádica de assuntos que sejam de seu interesse;Grupo 2: Lê os livros da Moda;Grupo 3: Lê os livros que não estão na moda;e nenhum dos três se inclui no publico -alvo de Samarone. Aliás, acho que eu (e creio que também ele) - não que queira me comparar - não temos público, e talvez tenhamos um pouco de alvo. Ninguém está muito disposto a ler coisas do cotidiano. A turma do grupo 1 lê jornal de vez em quando, mas só a página de esportes e, algumas vezes, o Viver ou o Caderno C (ou qualquer outro que fale de fofocas, mulheres, socialites e televisão), mas só quando aparece alguma gostosa na capa da frente e aí são remetidos para estas seções. Logo o Grupo 1 nem lê jornal direito, quem dirá crônicas de um cara falando sobre "galinhas pra fora da boca" e "indagações de flanelinhas".
Os comparsas do Grupo 1 vêem muita televisão, principalmente Globo Esporte e Programas Policiais, se homens, e novelas, se mulheres. Os do grupo 2 sabem tudo dos sitcoms americanos. Os do grupo 3 não vêem tevê. Dizem que televisão aliena as pessoas.
O que faz concluir, erroneamente, alfim, que leiturabilidade é inversamente proporcional à televisibilidade. Sofismo errado esse. Tenho uma amiga, que já devo ter citado aqui, que sabe tudo de livros. Sabe dos jornais do Grupo 1, sabe dos livros do Grupo 2 e dos perdidos do Grupo 3, e, ainda por cima, já viu toda a 2ª temporada de Lost. Ela é televisiva e leiturável. Camilla Chidid. De qualquer forma, temos que encontrar uma solução para este conflito, leitor, mas isto é tema para outro momento. À propósito, anotem e me cobrem. (acho engraçado como sempre escrevo imaginando que tem milhões de pessoas lendo minhas besteiras. Está na hora de começar a falar com os senhores no singular, digo, com o Senhor(a)).O pessoal do Grupo 1 sabe que o Grupo 2 existe. Às vezes ouvem atentos suas conversas e tentam gravar o máximo de palavras difíceis possível e saem dizendo que irão ler Harry Potter. O Grupo 1 não detecta a existência do Grupo 3.O grupo 2 lê livros quando alguém indica. TODO o grupo 2 já leu Código da Vinci e o livro árabe das pipas. A maior parte leu "Quando Nietzsche Chorou" do Yalom Qualquer Coisa (incrível como é difícil escrever sem google do lado), mas nenhum deles leu um livro de Nietzsche mesmo. Assim, o Grupo 2, é claro, também não lê coisas que não saem na mídia e não estão entre os mais vendidos da Veja. Aliás, este Grupo 2 lê Veja. O grupo 1 não lê revistas por que não vos interessa estas notícias. Já o Grupo 3 não lê Veja por que julga que eles são capitalistas e influenciados pela mídia.
O Grupo 2 se relaciona com o Grupo 1 amistosamente. Com o Grupo 3, também.
A recíproca não é verdadeira. O Grupo 3 odeia o Grupo 2, dizem que não tem senso crítico. O Grupo 3 tem pena do Grupo 1, e os trata com um respeito disfarçado.O Grupo 3, em conseqüência, não lê livros que todo mundo já leu. Alguns adeptos do grupo 3, em atitudes xiitas, vão às livrarias e perguntam bem baixinho e desconfiados ao vendedor "Qual o livro de algum autor mais ou menos famoso e que é MENOS vendido?". Depois, em suas conversas com seus amigos do Grupo 3 se gaba dizendo: "Ahn, você não conhece a obra de Charles Baudelaire direito, você por acaso leu sua tradução para 'Paraísos Artificiais'?". Me parece que pouquíssimos deles se arriscaram a ler umas crônicas dessas bestas assim. O último que soube, disse: "Isso não tem nenhum fundamento lógico ou metafísico, não me acrescenta em nada". E saiu espalhando para os amigos para nunca entrarem em www.segundodeabstracao.blogspot.com, um site onde um garoto escreve besteiras sem sentido...

Monday, April 16, 2007

Meus Revisores!

Saibam, vocês, estimados leitores, que já escolhi os revisores do meu livro, que possivelmente, pelo andar da carruagem deve sair quando eu completar 40 anos, e com certeza será um livro de crônicas, já que não tenho paciência para escrever um livro inteiro contando uma mesma história. Na verdade também acho que com essa correria moderna, nem todo mundo está interessado em livros longos. Não que eu tenha escolhido escrever textos pequenos visando o marketing, mas se calhou, ótimo!. Droga, me perdi! Mal-hábito este de escrever tudo que vem a cabeça.

Como vinha tentando dizer, os revisores serão: Guilherme Linhares e Paulo Victor Dantas. O primeiro por seu eterno sadismo quase animal para corrigir a forma, para trocar e acrescentar palavras do meu enxuto vocabulário. Este que ontem me disse "Nunca você pode se livrar da forma". Está certo. A forma precede o conteúdo. É só dar uma boa analisada nos outdoors de qualquer capital, por exemplo. Você só para pra olhar os que te chamam atenção pela forma. Só lê o da mulher gostosa ou da promoção do carro! Guilherme é, talvez, 100 ml de Olavo Bilac com o soro de Homero - pelo seu conhecimento histórico e político - e um granulado de Tolkien por cima.

O segundo pelo gratificante e sutil senso de conteúdo. Olhar clínico para observar peuqenos anacronismos e sábio no ofício se enxugar o conteúdo. Um garoto que desde muito novo tem a capacidade de analisar o mundo sob uma pespectiva livre e solta, e por outro lado, profunda. O que de pronto me lembra uma frase que acho que já postei neste site: "um texto é perfeito quando todas as frases podem ser o título". Isso obviamente é um radicalismo, mas serve de paradigma. Já repassei textos dos dois neste sites, mas não pretendo colocar mais, afinal espero que os meus também sejam lidos. Paulinho é a soma de João Cabral de Melo Neto com a profundidade de Oscar Wilde e com a perversidade de Woody Allen.

Na verdade, não imagino o que sairia se fosse possível juntar o talento dos dois, mas tenho certeza que Machado ia se juntar com Goethe do lado de lá pra bolar alguma coisa, já que não iam querer ficar para trás.

Tuesday, April 10, 2007

História em crescimento! Vejam a massa do Bolo antes de ficar pronta...

Aconteceu uma situação semelhante com os avós de um conhecido. Na verdade, é bem provável que todos já tenham ouvido essa história, já que parece ser alguma daquelas lendas populares que são contadas por velhinhos de rostos simpáticos aos netos completamente atentos. Porém, apesar de parecer uma fábula, tudo aconteceu mesmo, e foi ali na cidade de Natal. Quem quiser, pode ir lá perguntar ao Seu Pedro, que continua morando lá em Natal, e que pode confirmar tudo.

Inicialmente, vale dizer, apenas para situar o senhor leitor, que esta história trata de um casal de adolescentes. Ou Melhor, de um casal. Um casal que se amava muito e queria viver a vida inteira junto. Não que isto seja um artifício para tornar a história mais interessante, mas esta história trata de um casal.

Pausa interjeitiva:”Isso não define muita coisa, afinal são tantas as histórias de “um casal”. Vou além. É difícil uma história que não seja de um casal. É mais fácil tornar uma história interessante quando há um grande amor em jogo. Imaginem, os senhores, o filme Titanic sem Jack gritando por Rose. Assim, esta história pode parecer um pouco clichê em alguns momentos

Pois bem. Este casal desta história se conheceu muito cedo, há muito tempo, e logo descobriu que existia uma química incontrolável entre eles. Desde a primeira vez que Ele viu Ela suas pernas tremeram como terremotos. O amor era tão grande que Ela até escrevia pequenas frases de amor no seus cadernos de colégio, sob chacotas freqüentes de suas amigas, que também faziam o mesmo. A Joana, por obséquio, não a deixava em paz.

Não ironicamente, neste momento da história aparece um empecilho mais que justo para que eles não fiquem juntos. Que graça teria uma história em que mocinho e mocinha ficassem juntos logo no primeiro momento. Não, senhor leitor. Gostaria de dizer que um asteróide caiu e desruiiu a terra e que exatamente por isso eles não ficaram juntos. Mas algo muito pior aconteceu. Aconteceu não, já tinha acontecido há mais de um século.

Sabiam que aquilo não era certo, pois suas famílias não apoiavam aquela relação. Nunca alguém da Família Dantas tinha sequer trocado palavras com alguém da família Teixeira.. Rixa antiga, desde os tempos Jagunços. Na verdade, o tataravô d´Ele, o Senhor Arnaldo Dantas, tomou para si a mulher do seu ‘cumpade’, o destemido Geovaldo Bala-Cortada, numa situação que de tão escabrosa não gostaria de ter que compartilhar, mas minha busca pela verdade, imparcialidade e ética não me permitem silenciar. Saiba o senhor que naqueles tempos, a fama do Sr. Geovaldo Bal-Cortada corria todo o sertão. Desde o sul da Bahia, até o mais alto Maranhão, este “cabra” era temido por homens e mulheres, cachorros e gatos. Não se podia falar seu nome que os pais mandavam suas crianças pro quarto e fechavam as janelas de suas casas. Desde então as famílias criaram em ódio recíproco e viveram em guerra até este momento da história.

Por esta razão, às vezes, queriam se comparar a Romeu e Julieta ou a Píramo e Tisbe, mas era pieguice bastante. Ficaram muito tempo assim. Os dois, se amando e se tosando. Não sabiam bem o que fazer com aquele amor impossível. Achavam que por mais que tudo aquilo fosse muito forte, era uma relação que não valia à pena, fadada ao fracasso.

Assim, viviam os dois pelos cantos, desolados. Não sabiam mais o que fazer, pois o sentimento era muito grande. Por outro lado os empecilhos pareciam infinitamente maiores. Quando se encontravam, às escondidas, ela, quase sussurrando perguntava,

- Será que isto tudo vale à pena?.

Ele logo pensava em responder “tudo vale à pena quando a alma não é pequena”, mas lembrava-se de que ela não gostava de frases prontas.

Então, com altivez, respondia quase que cinematograficamente:

- Tudo vale a pena por um grande amor, Amor!

Os dois, nos seus momentos solitários, quando conversavam consigo mesmos, como que perguntando ao espelho mágico, se questionavam por que as noites pareciam tão longas. Ficavam a derramar rios de lágrimas que pioravam um pouco aquela tortura psicológica.

Quando, como num último suspiro, tentaram ficar juntos, o destino afogou seus sonhos. Aos 17 anos, aquela garota sofreu uma grande perda, talvez, a maior de sua vida: não O teria mais presente todos os dias. Ele, obviamente contrariado, foi obrigado a se mudar para a cidade de Recife.

Para Ele, aquele foi um dos maiores suplícios da vida, senão o maior. Seu pai foi transferido a pedido da Administração Militar – já que pertencia ao ativo das forças-, e com o fim da guerra, as Forças Armadas foram realocadas. Teve que se mudar às pressas, já que o trem que levaria os ativos da Aeronáutica sairia no dia seguinte. D’Ela, só conseguiu levar um beijo, muitas saudades e um sapato velho.

Pausa interjeitiva: Como alguém vai embora de uma cidade e leva apenas eu sapato velho? Puro Fetiche nos Clichês!”

Quando chegou à Veneza Brasileira, sua vida virou um martírio interminável. Viveu quase três anos em que todos os dias pareciam vésperas de execução de sentença. O carrasco da máscara preta virou seu confidente. Mas como a vida tinha que seguir, guardou tudo que se referia a Ela, inclusive seus sentimentos, numa caixa de sapato e a jogou no sótão. Aliás, jogaria, mas lembrou-se que sótãos são aposentos clichês de filmes americanos, e empurrou pos entulhos com o pé direito para baixo da cama.

O tempo passou muito rápido e para encurtar a história e facilitar o entendimento, logo uma legenda cor de amarelo cáqui apareceu na parte inferior do vídeo com os seguintes dizeres: “ DEZ ANOS DEPOIS...”

Ele formou-se em Engenharia em 1956 e andava procurando emprego. Ela estava quase se formando em Jornalismo.

Logo, surgiu uma ótima oportunidade para uma seleção de emprego em São Paulo. Ele não pensou duas vezes e foi tentar esta chance, já que nada o prendia naquela cidade.

Concomitantemente e coincidentemente, ela recebeu uma passagem para participar de um congresso na mesma cidade. Naquela época, São Paulo não era tão grande como hoje, mas já seria muita sorte os dois se encontrarem exatamente naquela metrópole. E foram os dois na quinta feira pensando apenas em seus objetivos profissionais. A passagem de volta estava marcada para a segunda-feira pela manhã.

Ele, ao chegar na Big Aplle brasileira foi direto para o Hotel. “Apartamento 301” – disse o recepcionista. Ele, como só faria prova no sábado pela manhã, resolveu experimentar os encantos daquela cidade cosmopolita. Aproveitou a noite da sexta e dirigiu-se a um daqueles famosos bordéis que se espalhavam pela Rua Augusta. Foi sozinho, já que queria mesmo era passear. Augusto, seu único amigo na cidade, prometeu-lhe que sairia com ele no sábado à noite, então a sexta pertencia a ele e ao Mundo.
Quando chegou no “Casa Vermelha”, pediu uma dose de whisky apenas para se sentir mais relaxado, ficou observando e comentou consigo mesmo “Pouxa vida, quanta mulher bonita num lugar só”. Pediu outra dose de whisky e olhou para a decoração meio luminosa meio decadente. Outra, e observou os movimentos frenéticos das dançarinas. Mais uma, e deixou dinheiro na calcinha de uma delas. Na seguinte, não sabia muito bem onde estava. Na última dose... nada!
E acordou no sábado pela manhã. Faria prova neste mesmo dia com a maior ressaca da sua vida. Reclamava de tudo. A cada passo que dava seu cérebro, que parecia ter diminuído, balançava dentro do seu crânio. Cogitou a possibilidade de desistir da prova e dormir mais um pouco. Tinha certeza que aquele seria o pior dia de sua vida...

Ela já sabia que congressos de jornalismo não se prestavam só às palestras, mas isso não a impediria de tomar maior proveito daquelas aulas. Assim comprometeu-se a ir todos os dias às palestras pela manhã. Estava completamente excitada com a possibilidade de entrar em contato com o que havia mais no new jounalism. Naquela sexta-feira acordou cedíssimo, dirigiu-se ao auditório e anotou cada espirro dos palestrantes.

Neste mesmo dia à noite, foi convidada a uma daquelas festas organizadas dentro das próprias faculdades. Decidiu ir apenas para conseguir novos contatos no meio jornalístico. Todos os seus amigos usavam drogas, mas ela sempre foi uma garota centrada e não se perderia de seus objetivos.

Não se sabe por que, mas decidiu experimentar um pouco de vinho, talvez uma taça. Talvez duas. Talvez uma garrafa. Talvez duas. Já um pouco acima de seu estado normal, decidiu fumar um pouco. Mas não fumou um pouco. Lembra-se de dois flashes: 1. “Ela vai precisar de glicose”. 2. Sua amiga Joana perguntando “Isso... É esse o nome dela, qual o número do quarto?”.

Levantou-se de uma vez com o toque do despertador e tomou um banho de 45 minutos. Saiu correndo para a sua palestra. Olhando para a chave observou que seu apartamento era o 302.

Por ironia do destino – ou não -, abriram as portas ao mesmo tempo. Ele ainda estava limpando os olhos enquanto encaixava a chave na fechadura. Levantaram os olhos ao mesmo tempo. Fitaram-se durante alguns minutos. Durante vários minutos. Era muito improvável. Ela deu um pequeno sorriso e baixou o olhar, com aquela mesma cara de tímida que fazia aos 13 anos. Ele entendeu bem o recado. Perguntou-lhe o nome apenas para confirmar. Ela respondeu:

- Você não está me reconhecendo? Sou eu, a.... – e foi interrompida por um sorrateiro e inesperado beijo.

Convidou-a para entrar no quarto às 8 da manhã do sábado. E só saíram na segunda pela manhã. Ele esqueceu da prova. Ela da palestra. Eles esqueceram tudo. E se amaram durante Dez anos perdidos naqueles dois dias.

Quando conseguiram largar as bocas, Ela perguntou:

“Você acha possível que fiquemos juntos? Você está noivo!”

Ele, como qualquer boa história clichê que repete conceitos no começo e no fim, respondeu, desta vez com um breve sorriso no canto da boca:

- Tudo vale a pena por um grande amor, Amor!

Esta história terminaria perfeitamente se eles dois voltassem no mesmo avião e vivessem juntos, porém, como uma boa história de amor moderna, as coisas não terminariam sem uma tragédia à grega.

Vieram juntos na mesma aeronave até Recife, onde ela pararia apenas para fazer escala. Sem nenhuma palavra, deram um beijo ardente e ela seguiu para Natal. Depois disso longos anos se passaram.

Soube-se depois, através o próprio Seu Pedro, que os dois se casaram –obviamente com outras pessoas - e viveram vários anos com seus parceiros que consideravam os substitutos daquele grande amor que se perdeu no passado. Ele, nunca contou a nenhum dos grandes amigos que fez em Recife que pensava todos os dias naquela mulher. Apenas achava que nem a reconheceria se a encontrasse depois de tanto tempo. Saía escondidinho nos dias de semana e, quando encontrava os velhos amigos, trocavam algumas bulhufas, quase sempre tentando enganar a frustração de ter deixado passar o grande amor. Chegava em casa bêbado e vomitava lágrimas.

Ela não. Mulher é sensitiva mesmo. Tinha certeza que se o encontrasse, o reconheceria. Quando todos em sua casa iam dormir, não fazia como ele. Ela não bebia nada, mas quase sempre ficava ainda mais bêbada que ele, por saber a besteira que tinha feito em deixar um grande amor. E chorava como se vomitasse.