Fragmentos que ensejam uma história, para bons imaginadores.
Ela virou mais um copo e o bateu com força na mesa. Olhou para todos e começou:
- Vocês não acreditariam, mas se insistem.... Era uma tarde de terça qualquer – Isolda Olivertree diz ‘terça-feira qualquer’, mas tem certeza que se refere à tarde do dia 28 de março de 1967 – houve um incidente espacial inigualável. As Luas de saturno, todas, entraram em quadratura, que, por sua vez, alinhou-se com a terra e o sol. Os telescópios não previram: o sistema meteorológico naquela época, lembrem-se, andava aos poucos. Os tradicionais, os padres, e os pensadores, e sobretudo os moradores aqui de Piterandópolis do Norte torciam o nariz quando se falava em NASA. Mas algo acontecia dentro de mim. Um grande fato estava prestes a acontecer e eu sentia fortes correntes de sinapses me correrem o corpo inconscientemente. Eram, talvez, umas 5 horas – Isolda diz “talvez 5 horas”, mas tem certeza que o evento aconteceu de fato às 17:37 – e o sol, que já dava sinais de cansaço, piscou para mim.
Alguns se cutucaram entre si. Um deles riu. Mas ela continuou sem titubear:
- Foi uma comunicação universal do cosmos, eu tenho certeza. Não sei se o sinal foi-me enviado especificamente ou se outras pessoas com a mesma posição hemisferial que eu poderiam ter percebido. Conferi as horas no relógio, e os ponteiros marcavam cinco e pouca – 17:20, ela sabia precisamente -. Minha mãe estava na cozinha, fazendo alguma daquelas delícias que as mães faziam no fim da tarde – mais uma vez quis parecer esquecida, mas eram bolinhos de chuva – e meu pai, recém-aposentado, tentava descobrir como sintonizar uma rádio qualquer – Rádio tupi.
Deu uma pausa, encheu o copo até o meio, e prosseguiu:
- Você estão entendendo o que ocorreu até agora? Era uma tarde aziaga qualquer, numa terça-feira, dia em que ninguém se dispõe a nada, a não ser um carteado no começo da noite e uma conversa fiada na calçada. Nenhum evento importante da história humana ou da natureza deve ter ocorrido numa terça-feira – “deve ter” significava certeza para Isolda Olivertree – mas aquele dia estava reservado, vocês verão o por quê.
- Hum..
-Como eu vinha dizendo, o sol piscou para mim. Apagou tão rapidamente que qualquer outra pessoa que não estivesse atenta perceberia. Mas eu estava, por que naquele dia, eu acordei diferente. Senti que aquele dia mudaria a minha vida. O meu sangue corria de uma forma diferente. Podia ouvir a velocidade das batidas do meu coração. Eu acordei dentro de mim mesma.
- Desde que acordou?
- Sim. Eu senti. Bem, quando o sol reacendeu, milésimos depois, voltou mais forte. E me possuiu um calor descomunal. Vocês não entendem, não era calor de início de verão. O calor vinha de dentro e causava queimação em todo o corpo, como se milhares de caravelas do mar me houvessem pegado. Meu corpo aqueceu-se de uma forma inacreditável. A corrente de sinapses que dominou naquele momento me deixou em transe. Um sono voraz me atacou. - Um deles olhou firmemente com cara de dúvida "sono voraz atacou?" - Sei que o sono é uma coisa tão esbatida que seria incapaz de atacar alguém. Mas estou dizendo: foi um sono fulminante. Tudo, dentro de mim, desfaleceu. Pude sentir meu pâncreas adormecer. A quentura me subiu ao cérebro e o corpo todo queimava. A roupa parecia colar no corpo em chamas, e eu me despi para tentar sobreviver. Na minha nocauteada consciência, eu achava que havia chegado a hora de abandonar o mundo terrestre.
Todos já estavam abismados com a história. Ninguém piscava. Uma formiga passava lentamente sobre o croquete de carne, mas neste momento ninguém mais ligava para croquetes de carne, nem de lagosta, se fosse.
- Eu me voltei completamente para dentro de mim e a
interface mundana apagou-se naquele momento. Talvez fosse mantra, talvez buda. Talvez até tenha alcançado a luz, que tanto dizem. Não sei. Nunca vou saber. Nunca sentirei aquilo de novo. E Nenhum de vocês, tenho certeza, sentirá.
Súbito, minhas glândulas salivares começaram a tremer. Uma pontada forte no estômago me fez reclinar. Os joelhos estavam trêmulos, e juntos, os ossos batiam uns nos outros, produzindo um esdrúxulo som dentro de mim. O som não se propagava para fora do corpo. Não creio que alguém, se presente, ouviria. Nem sequer me chegava aos ouvidos. O som dos meus joelhos ecoava dentro de mim, pelo ovário, pelas trompas, pela caixa torácica. Apenas eu ouvia aquilo: uma música estonteante, e incessante, talvez dessas que hoje os garotos chamem de
rave. - Neste momento, ela levantou e simulou como os joelhos batiam um no outro. Desequilibrou e apoiou-se no parapeito da varanda. Derrubou uma pequeno copo de tequila que espatifou-se no chão, matando uma formiga que ali passava lentamente, talvez da mesma família da outra formiga. - Nada daquilo era eu mesma. As glândulas salivares e sudoríparas pareciam produzir líquido para dentro e para fora do corpo. Eu entendi, no meu subconsciente: chovia dentro de mim. Cascatas me inundavam o fígado, os pulmões. A respiração ficou cada vez mais rara. Havia música e chuva dentro do meu invólucro. Uma dança, uma festa, um rackiem, tudo nas minhas estranhas desorganizadas.
Encheu o copo mais uma vez e continuou:
-E isso não foi tudo. O sangue começou a correr cada vez mais rápido. Tenho certeza que em velocidades vertiginosas, algo completamente extravagante, como furacões aprisionados. A velocidade fez o sangue esquentar. Senti as bolhas do sangue que entrara em ebulição. Não tenho certeza se a quantidade de sangue aumentou - ela tinha certeza- mas aquele aquele montante de líquido vermelho não mais se continha. Percebi que o sangue procurava saídas para se livrar do corpo.
- Por isso, então, cortou os pulsos - concluiu um deles com olhar pensativo. e continuou -Então foi neste dia que você foi vista dançando nua na chuva?
- É o que eu estou tentando dizer a vocês, eu não estava dançando, eu estava tentando me livrar do transe, ou o que fosse. Quando retomei a consciência e abri os olhos, vi que toda a Piterandópolis do Norte plantava-se na Praça da República para me observar, inclusive o Reverendo Walter, que até ir para o túmulo, nunca mais me dirigiu o olhar.
-Então, Isolda, quer dizer que aquela chuva foi a “sua chuva”? – e fez o sinal das aspas, como ironizando o que ela dizia. Mas Isolda não se abalou, nem um pouco. A verdade borbulhava nos seus olhos. E sua voz, se possível, estava ainda mais firme.
-Eu não tenho certeza – ela tinha certeza – mas, se vocês conseguirem forçar a memória, éramos todos muito novos, perceberão que quando minha dança cessou e meus olhos abriram, a chuva parou instantaneamente.
Todos se entreolharam, mas ninguém lembrou. Naquele dia, estavam todos muito concentrados na insanidade de Isolda. Nunca se vira na cidade alguém dançando na praça. Nua. Na chuva.
- Minha mãe me agasalhou, e meu pai pediu que todos dispersassem. Eu fui levada para casa e posta na frente da lareira. Os devidos curativos foram feitos. Tudo parecia ter terminado. O transe havia passado e eu estava agasalhada nos braços da minha mãe, sob o olhar acalentador dos meus genitores. Mas algo ainda não havia terminado. Algo havia mudado e tudo aquilo me parecia irreversível.
- O que?
- A suspeita se confirmou quando eu olhei no relógio. O impossível acontecera. Os ponteiros marcavam exatamente três horas e trinta e sete minutos da mesma terça-feira.
- Como pode? Impossível. Se o transe começou às cinco e pouca...
- Foi isto que aconteceu... Desde aquele dia, eu recebi este dom... desde então eu tenho a habilidade de...