Sunday, April 16, 2006

Duvido Muito!

É isso. Renato Carneiro Campos, que era um cronista do diário na década de 70, falou exatamente o que eu queria falar agora, neste fim de tarde de domingo. Mas ele se antecipou.

"No domingo à tarde, existe algo de expulsão do paraíso, véspera de cumprimento de sentença, arquitetura de adeus."

E no último dia, Ele descansou. (agora já me confirmaram que Ele descansou no sábado. Mas descansar no sábado? Zorra Total? Duvido muito.)

Tuesday, April 11, 2006

Jarros Chineses, Beijos Franceses e Divorciados Cortêses

Ele olhou fundo nos olhos dela e disse:

- Pronto, Joana, só falta isso. Então, quem fica com o Jarro Francês? – parou um pouco, pensativo - Você lembra da viagem de Paris com o João e a Bete, seus primos? Eles são um saco, você tem que admitir. Mas quando eles nos deixavam sozinhos, nós aproveitamos bem a viagem. Foi lá a primeira vez que você me deu aquele beijo Francês que me deixava louco e fez aquele...

- Marcelo, por favor – bradou ela interrompendo-o - não vamos relembrar essa parte. Estamos tentando dividir as coisas.

- Tudo bem, você pode levar este jarro velho. Você que comprou mesmo. Sempre teve uma queda por velharia. – falou em tom de deboche.

- Primeiro, isto é um Jarro Chinês e é caríssimo. Segundo, pelo menos não fui eu quem comprei aquela luminária cafonérrima numa feirinha de rua no bairro italiano. Por favor, Marcelo!

- Eu sempre tive bom gosto e, aliás, apesar de achar feio, acabei de lembrar fui eu que comprei este jarro. – disse tomando o jarro da sua mão.

- Você me deu de presente! – retrucou ela, tomando-o novamente

- Mas fui eu que paguei! – disse ele pegando o jarro e colocando-o na caixa

- Foi por isto que não conseguimos ficar juntos. Você é um salafrário! – gritou ela enquanto ele apanhava a última caixa.

Após partilha não tinham se encontrado nenhuma vez. Mesmo vivendo na mesma cidade, conseguiram passar 3 anos sem se encontrar. Ele sempre pensava nela. E vice-versa. Mas eram bastante orgulhosos para procurar um ao outro.

Ela tinha voltado para a vida comum. Pela manhã, corria 2 horas na esteira da academia para perder o peso que ganhava nas noites solitárias de depressão. Comprava vários potes de sorvete e tomava à noite enquanto via pela décima quinta vez “O diário de Briget jones”. Sempre cantava baixinho ‘All By myself”, e, quase sempre nessa hora, a sua mãe, já idosa, passava e comentava:

- Minha filha, se levante, vá procurar o que fazer, ele não merece isso. Ele era um patife! Um salafrário! Um canalha! Ele merecia que você cuspisse nele! Que todo mundo cuspisse nele! Aquele Crápula – dizia a velha com cara de nojo.

Ele voltou a trabalhar e passava as noites na internet conversando com mulheres do Japão. Tinha o sonho de ir para o Japão, fazer uma pós-graduação em arquitetura, mas não tinha dinheiro. Ficava alimentado o sonho conversando com Japonesas pela internet. Passou a morar sozinho depois da partilha. O porteiro nunca o viu entrando com uma mulher. O vizinho do prédio da frente espalhava o boato de que ele era Gay.

Uma noite daquelas, depois de muita reclamação da mãe, ela se arrumou como não fazia há 3 anos. Deu uma volta na cidade à procura de algo interessante, mas não encontrou nada. Passou na locadora, alugou um filme diferente e, para passar o tempo, passou no supermercado para comprar o vinho, enquanto esperava a hora da mãe dormir.

Ele, depois de muita insistência dos amigos do trabalho, aceitou o happy-hour depois do expediente. Tomou um chope, mas, mesmo rodeado de tanta gente, sentiu-se triste e solitário. Inventou uma história de que tinha marcado um encontro e largou os amigos. Resolveu ir comprar uma pizza.

As mãos coincidentemente encontraram a mesma garrafa de Borgonha. Era o vinho que os dois costumavam tomar. Entreolharam-se por 10 segundos e ele afirmou perguntando:

- Joana!?

Ela respondeu perguntando:

- Marcelo!?

Os doís riram-se.

- Por onde você tem andado? Você está... bem? – perguntou ela, com medo da resposta.

- Estou ótimo. Estou comprando esta garrafa de vinho. Tenho companhia em casa hoje. Os amigos do trabalho. Sempre temos muitas festas... Você, como anda. Também comprando vinho? – disse ele num tom meio duvidoso

- Nós temos um casal de amigos que cozinha muito bem. Hoje eles decidiram cozinhar lá em casa. – respondeu ela, para retrucar.

- Nós? – repetiu ele – Ah! Entendi.

- Pois é, Marcelo, as coisas mudam. O tempo passa.

- Eu também estou bem acompanhado, não de preocupe, qualquer dia chamo “vocês” para jantarem lá em casa também. – disse ele aumentando a história.

- Pode chamar. Tenho que ir, se não eles me matam. Devem estar morrendo de fome. Passar bem, Marcelo.

Cumprimentaram -se estranhamente e ela se virou e apressou o passo. Tinha que fazer parecer que um belo jantar a esperava .

Ele chegou em casa e quando abriu a porta e encarou a casa solitária. Soltou todo ar que tinha nos pulmões, dando uma bufada de raiva e inveja. Comeu a pizza, tomou o Borgonha e tentou assistir um programa qualquer, mas não conseguiu de concentrar. Só conseguia que naquele momento ela estava aplicando o Beijo Francês que o deixava louco em outra pessoa.

Ela, como chegou em casa antes do tempo, sua mãe estava na sala.

- Minha filha. Não arranjou o que fazer, você não tem jeito mesmo. Já disse que você tem que procurar um psicó...

- Mamãe, vai dormir vai – falou empurrando a senhora com jeito.

Debruçou-se no sofá, abriu o Borgonha, e pensando nele, ficou assistindo Guerra dos Sexos.

Friday, April 07, 2006

Ana Baf- Convide-me a conhecê-la

Me sobrou o mínimo de depressão necessária para escrever uma reles crônica. Me faltou um garrafa de vinho. Esta tosse tuberculosa, além de não me deixar beber, me faz borrar o texto e pontuar onde não devo. Nesse momento de insuficiência pensante, acontece algo quase sempre improvável e a luz do pensamento acende. Não foi este o caso. Para a minha salvação literária ocorreu diferente.

Apenas não posso dizer que este texto me foi trazido numa garrafa vinda do pacífico, por que eu tenho noção de até onde o clichê pode chegar. Mas confesso que veio voando. Caiu aqui na minha frente e derrubaria a taça do vinho, se eu pudesse bebê-la. Mas aparentemente, de fato, o texto se molhou com o meu vinho psicológico. Ao que merece ser degustado pelos sentidos literários.Só de sentir o aroma do vinho, é latente o bouquet de raiva, medo, orgasmos, explosões. Incensa o ambiente de sentimentos sujos e pequenos. Envolvimento total. Fortes perfumes de lascívia e violência grátis. O cheiro quase engana. E parece que a intenção é essa: enganar.

As lágrimas do vinho são as mesmas que parecem ter molhado este pedaço de papel.

Ao primeiro gole de verbos, sobressai os sabores de ódio e de perversidade. Na ponta da língua é possível sentir um pequeno ardor que parece a busca pelo alter ego ou a procura por alguma outra coisa. Com um pouco mais de insistência, mais tempo com o vinho na boca – ou com os olhos no texto – permance um sabor acre e amargo com detalhes de frustação e depressão.

Ao fim, apenas como teste de persistência, apenas cuspi o vinho e aconteceu o que era esperando num VINTAGE de qualidade. Permaneceu nos sentidos durante um bom tempo.

Depois de reler algumas vezes, saí apenas infectado. Quase tão pernicioso quanto o autor(a). Ainda me veio quase borrado a assinatura Ana Baf! Convide-me a conhecê-la.

Pensamentos de um Suspiro.



Mas se palavras gentis de persuasão
Não encontram meio de abrandar-vos,
Terei de cortejar-vos como soldado,
E contra a lei do amor, a amar forçar-vos.
(SHAKESPEARE: Os Dois Cavaleiros de Verona.)



De fato cansei, finalmente, nessa altura de minha vida, dessa boa pessoa que me fiz. Cansei de ser o tão bom e compreensivo escudeiro, o amigo do peito, o irmão de todas as horas. Que se danem todos. Que se fodam!!
Quero sentir vibrante no peito as ondas do proibido, e que me complete o proscrito e marginalizado, o abominado, o nefasto......não sou eu outra coisa que não isto, não sou eu de matéria mais estérea que esta, por mais que a aparência me desminta, como um anjo nascido no inferno !!
Que me torne indiferente como a mãe que abandona a cria. Que me transforme do riso sinico e fleumático de um garotinho, que na manhã de um domingo, mata um passarinho. Que eu esteja em cada murro dado, em cada encéfalo na pista, em cada dente no chão. Que me vejam nas placentas jogadas aos rios, nos fetos nos baldios, no sangue nos azulejos.
Quero como amigos Mefistófeles, Adramalech, Baal, Jezebedth...todos em grande roda, com um único propósito e um único sentimento....para que assim, quem sabe, eu encontre um cúmplice para minhas angustias ou compreensão em outros olhos que não sejam os meus no espelho.
Quero rir e dançar na frente dos que morrem, gozando a vida que eles não tem....quero que me invejem essas pobres almas condenadas....cuspindo no feio, me saciando na expiação do faminto, seduzindo os infelizes....
Quero ser o câncer recém descoberto, o medo dos filhos na frente dos pais, a malicia do psicopata trabalhando em sua vítima, os gritos de ais, a danação, a dor eterna...quero que me invejem e sintam receio de mim. Quero ser o asco de uma mulher violada, a violência de uma tapa, a terra que cai no caixão.
Derradeiro em tudo, que não seja mas eu um simples arroto de Deus...que me ponha além de todos, impiedoso e frustrado, sem saber o que é o amor ou o carinho...pois já, então, me bastarei, e de tudo que se retorce e espinha serei imagem e exatidão. Irmão de sina dos desvalidos, cão minguado, animal.
Quero tudo isso....pois antes o ódio que a indiferença, antes o temor que a complacência, antes o horror que a insensibilidade.
Quero que você me veja.....nem que seja com uma felpa a mais na cruz a espinhar o Salvador, nem que me entenda como um beijo antes de um adeus.......nem que me deteste....
Ahh!

-Sim senhor, tudo bem e você? quanto tempo não eh?

Wednesday, April 05, 2006

Doce emprestado.

Alguns textos presam só a forma. Outros prezam só o conteúdo. Parece que estes últimos sempre se perdem quando tentam descrever minuciosamente os meandros da história, se tornando-se prolixos e sem graça. Um dia, um outro gênio da humanindade traçou um paralelo interessantíssimo: "Se os homens que vêem este filmes com mulheres nuas querem ver apenas sexo, por que os eróticos vendem mais que os pornôs, se naqueles as mulheres usam mais roupas?" A resposta é objetiva: tem que haver espaço para o receptor da mensagem criar as suas alterações na história. É a melhor forma de interação.

Eu mesmo, sempre tento trilhar neste sentido. Histórias mal contadas, emboladas, que imitam a vida. Ninguém quer o realismo cru de "amarelo manga", mas ninguém aguenta mais os filmes ultra-explicados de hollywood. Guarde sua preguiça pensante.

Esse texto segue esta mesma idéia - se assim posso dizer - e foi encomendado ao meu primo Paulo Victor, que acertou em cheio, como de costume, mesmo sem saber o que eu queria. Apenas lhe pedi que escrevesse. Ele me presentou com este incrível e ultrasensível texto: O Doce!. Abram alas:

O doce.

Olhavam os dois para o telefone e era uma quarta-feira feia e aziaga, onde o sol custava muito a aparecer e o mundo parecia vazio como um hiato. Toda a sala era banhada por uma atmosfera pobre e embaraçada, cada objeto arrumado a fim de que parecesse mais caro que a crueza da ralidade mostraria.

E olhavam para o telefone. Preto, grande, o disco numérico engordurado e os parafusos à mostra. Contemplavam-no como se disso dependesse a sanidade do mundo, e a cada instante um deles levanta e verifica o sinal de discar. Funciona. Funciona e não toca.

Anoitece. Não se preocupam em acender a luz. O mais novo (um era velho e de barba branca, usando uns óculos caríssimos, o outro era menos velho um pouco, a aparência acovardada por um terno impecável) tateou no escuro uma garrafa de whisky barato e tomou um gole curto. Estendeu ao velho, que recusou polidamente mas sem dizer palavra.

O bem vestido risca um fósforo e acende um cigarro. Da tragada, a fumaça traça seu caminho nitidamente pelos fachos débeis de luz lançados pelo poste no outro lado da rua janela adentro.

O contempla a fumaça esvaindo-se. E o telefone. Este, mudo, apático, feíssimo e pesado como uma baleia pré-histórica. Emite, o velho, grunhidos de descontentamento a intervalos simétricos, coisa da idade, meu filho, tem tempo em que tudo acontece à nossa revelia.

Enfim, toca o telefone. Era inexorável. O mais novo fita o velho, que o fita. E olham para o telefone. O rapaz avança, puxa o monofone e responde sempre com palavras medidas à régua. Desliga. Encara o barbudo e vê os cabelos despenteados, a barba desgrenhada e o odor nauseabundo originado na carência de água.

Arruma laboriosamente o nó da gravata, sem espelho mesmo, que nesse lugar é dificil de achar, diabo de povo que não arruma o lugar antes de mandar a gente fazer o serviço, querem que a gente fique aqui um tempo do tamanho do mundo e não botam a merda de um espelho no quarto.

Do paletó, tira um Taurus muito usado mas muito limpo e cuidado. Dá um tiro na têmpora do velho, que morre de olhos abertos e com a expressão perfeita de asco estampada na cara. Começara a apodercer ainda em vida.

Alisou o paletó diligentemente, como fazia tudo mais nessa vida, guardou o revólver e sentou. Tateia novamente a garrafa e sorve outro gole desesperado. A bebida é amarga, pérfida, mefistofélica. Azeda. Aziaga. Triste. Contempla a expressão do velho e os lábios arroxeados. O cheiro putrefato e goiabas podres lhe põe fogo nas narinas. É ruim, tudo muito ruim, este caralho de vida e outro velho tombado no chão, e se é para tombar outra vez, tombo eu. Toma nas mãos o revólver ainda quente e enfia na boca como faria a um doce e puxa o gatilho, livre e feliz.