MESA REDONDA CIBERNÉTICA! A PRIMEIRA SAGA! MARINHEIROS E/OU ESCRITORES DE PRIMEIRA VIAGEM( OU VIAJEM)?
Senhores,
“Nada existe realmente a que se possa dar o nome de Arte. Existem >somente artistas”( Ernst Gombrich)
Agora o segundo de abstração vira a mesa e se tranforma no projeto “Mesa redonda cibernética”. Com as grandes aparições de três amigos que, no mínimo, são grandes pensadores, quiça, grande filósofos, nos aventuraremos a debater temas de certa complexidade. Peço, desde já, perdão pela complexidade do tema por mim sugerido frente ao diminuto tempo concedido. Sugiro a quem for propor os próximos temas que proponha: bunda ou futebol.
Eis o tema sugerido:
“A Arte.
A Arte é sempre uma Transgressão social? A arte é sempre vanguardista? Aqui, eu digo que a arte é sempre contestadora da sociedade, dos erros da sociedade. Segundo esta teoria, seria essa a grande razão do Brasil ser um país tão criativo, tão artístico, pois as mazelas sociais são muitas e há muito que se contestar. Não me venham com Marcel Duchamp – privadas e rodas de bicicleta? – nada mais contestador. É a representação total do movimento desconstrutivista da arte que vem tomando o mundo, e, no Brasil, desde a Semana da Arte moderna no Brasil. É a negação da arte comum que se fez durante toda a história, sobretudo quebrando toda aquela idéia parnasiana do momento. Outro conceito que também se segue a esse é: a Arte sempre contesta o último movimento em voga, sobretudo na literatura, sempre reaviva a escola que veio antes da escola passada. Ainda existe a idéia do ciclo de vida da arte, que até onde minha mente alcança, sempre começa na literatura. E toda essa teoria se reflete na Música, pintura, dança, e o que mais queiram interpretar como arte! Quem é artista no Brasil hoje? quem é Poeta? A idéia é: existe arte que não seja contestadora?” Deliciem-se
Eis as opinições:
Erik:
Então, pessoalmente, acho que a melhor forma de afirmar o que é arte, é afirmar o que não é arte. Minha mente pequena, e minha ignorância artística não me permitiram achar alguma arte que não fosse trangressora. Como diria um grande professor de faculdade: todo texto começa com uma definição e/ou conceito – esta diferença só o companheiro Guilherme Andrade é capaz de explicar. Pois bem, imagino que todos vocês, ou os mais conceptualistas, como eu, devem ter perguntado ao Sr. Aurélio Buarque de Holanda o que ele achava sobre a arte. Não que ele seja amigo íntimo, mas não neguei seu convite para uma conversa de mesa de bar. Entre um gole e outro, Disse-me: “Arte, para mim, é a capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria”. Então, por essa afirmação, imagino que ele não seja muito adepto da teoria da arte enquanto transgressão social. Parece que, para ele, só exprimir a idéia, já vale como arte. Então, oratória e dialética, são artes? Sei não. Não que eu queira discordar, mas não creio muito. Mas como conversa de mesa de bar, nunca acaba rápido, principalmente com o meu estimado amigo Aurélio, prosamos mais quinze centavos, e concluímos – mais da parte dele -, que a transgressão não está associada à arte em geral, mas à arte vanguardista. Essa sim, vocês não poderão discordar de mim. Não me venham com argumentos pequenos. O dicionarista disse assim: “Arte de vanguarda. A que apresenta características inovadoras na forma e no conteúdo, opondo-se geralmente aos padrões aceitos pelo consenso geral.” Mas como o tema é arte em geral, voltamos.
Depois de muito discutir sobre isso nas últimas duas semanas, não concordei que a arte seja SEMPRE transgressora, mas também não achei um bom exemplo de uma arte que não o fosse. Por outro lado, se a arte for sempre transgressora, dois pintores de uma mesma escola não poderiam ser artistas, pois apenas um deles teve a idéia trangressora? Também não creio.
Espero, por outro primas, que nenhum de vocês tenha afirmado que os últimos conceitos de arte moderna não são arte. É a maior expressão do desconstrutivismo que vive a arte. Talvez, em raciocínio extensivo, ainda estejamos destruindo alguns conceitos do período passado. Na música, por exemplo, estamos voltando ao rock cru, sem firula, sem muitas notas – vide: strokes. Noutro ângulo, tenho certeza que os senhores acordam que a arte nem sempre é um fenômeno cultural. Digo, sempre é um fenômeno cultural, mas nem sempre tem ligação direta com a sociedade como um todo. Certas vezes são dores da alma, independentes de tempo e espaço. Alguém discorda do conteúdo artístico dos sofrimentos do jovem Werther? (Goethe).
Ao gosto de Maria Odete, as palavras de Vinícius de Moraes: "ARTE E SÍNTESE" Arte não é só "fazer": é também esperar. Isso nos atrapalha um pouco a conceituar arte. A arte tem que ter um período de tempo para se concretizar? Tem coisa que viveu tanto tempo e naum é arte! Também discordo que tenha a ver com o tempo, com a devida vênia do Poetinha. No fim, me parece que a arte é definida no íntimo de cada um. Tudo que te toca fundo na alma pode ser arte. O gole do vinho, uma nota perdida em uma música, um traço mal feito, uma privada. Uma privada!
Maria Odete:
Ah, não... o verde não ta combinando com o resto das cores. Merda! Justo agora qe estava ficando tudo nos conformes! Eu e essa minha mania de me preocupar com a opinião alheia: absorver os ditos alheios, fazer quadros para o alheio. Quem disse que arte tem que ser sempre pra todo mundo?
O meu quadro quem pinta sou eu! Meus traços, meus arcos, minhas cores... minha mistura de cores. Minha. Bem que eu poderia ter pensado nisso antes de jogar o verde na tela. O egoísmo faz parte da arte. Pobre daquele que só se expressa para o próximo – ou pior ainda, que só faz arte para os próximos distantes.
Ah, se essas eles soubessem que a arte é de cada um! Tudo seria tão mais mágico e – ha! – intimista. Claro!!!! A arte sem o sentimento intimo do artista não tem sentido, não tem deleite. Com isso não quero dizer que artes com sentimentos sejam meras expressões sentimentalóides. Muito pelo contrário! Gritos, pesos, retas, quebras bruscas de alinhamento, apelos: acho todos os urros íntimos de pavor e revolta absolutamente atraentes. E deliciosamente íntimos. E são esses permeios íntimos que mexem com os amantes da arte e fazem a sociedade deglutir a arte e evoluir. É... sempre os sentimentos íntimos.
Essa história de segundos e terceiros escolherem cores, versos e notas é, pra mim, uma pseudomorte da arte inteligente. Vejam só o meu exemplo: que raios esse verde foi fazer nessa tela? Não tem nada a ver com a mistura do cinza, azul e lilás que eu coloquei antes! Eeehhnnn... bem... na verdade, até que dá pra quebrar o galho... se eu juntar o peso do cinza com a leveza do verde... ai, que coisa difícil essa tal arte inteligente!
Paulo Victor:
Bom, factum est:
Tô eu sentado no PE-15 meu de cada dia quando abro pela enésima vez Lolita, de Nabokov. Eu já tinha aberto esse livro umas quatro vezes e nunca passava da página oito [eu acho que tem hora pra ler cada livro; toda vez que começava a ler esse, meu hipotálamo dizia pópará] mas dessa vez eu estava resoluto: ou eu comia o livro ou ele me comia [sem trocadilho, sí vú plê].
O texto já começa assim: "Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta." E a narrativa prossegue sob uma constante pátina de erotismo que me fazia sempre virar avidamente a página, ansiando por mais.
Paralelamente, nos antros do YouTube, acabei vendo [quase] sem querer um desses vídeos animados do Alexandre Frota em posições que deixaria qualquer professora de yoga espantada. Os diálogos eram consideravelmente menos profundos que os de Nabokov mas, ahn, creio eu que o objetivo da narrativa era, nesse caso, mais pictórico que qualquer outra coisa. Visualidade rules.
Tendo esses dois textos [?] em mente tentei vê-los como forma de expressão de arte. Encarar o trabalho de Nabokov como arte não é complicado e é, até, muito óbvio. Todavia, esbarrando no filme de Frota -- ainda que o mote inicial, sexo, fosse o mesmo de Lolita -- achei um pouco complicado ver alguma coisa de arte ali. Então, na minha burrice comedida fiquei ponderando como raios um mesmo assunto pode enveredar por caminhos tão distintos, tão díspares. Então me veio à cachola a seguinte questão: quem define o que é arte? O público, certo? Se neguinho vai ao Museo del Prado e fica babando em frente a um Goya ou pega um Alto José do Pinho/Macaxeira pra dançar brega, não seriam essas duas formas diferentes de se apreciar arte? No fim das contas, não é só uma questão de gosto?
Arte de verdade é aquele japonezinho lá da Liberdade sentado, fotografando as coisas, é o que acaricia os ouvidos e beija os olhos. Essa palhaçada de academicismo não ajuda em muita coisa na hora de definir o que é e o que deixa de ser arte. Por que diabos um sapato com uma xícara ao lado é mais arte que Eu Quero Chupar o Seu Canudinho?
Guilherme Andrade Linhares:
"O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.
...Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores.
Isto é um defeito.
Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.
Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
...Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.
...Toda arte é completamente inútil."
Trechos do prefácio do romance único de Oscar Wilde.
A JANELA
Havia a natureza, e o firmamento, e os campos até além da vista, mas além do beiral da janela também havia uma lavadeira, e era ela que sustinha meus olhos.
E todos os dias, nas horas exatas, eu esperava ver suas pernas descendo numa carreira as escadas do fundo da Vila. Ansiava ver seu corpo metido numa fazenda simples guiar meu olhar para o quintal, para as cordas de arame do varal, até as toalhas de linho branco dependuradas, bem abertas e estendidas sob o céu.
Dias de chuva e domingos eu fechava minha janela. Ela nunca aparecia. Fechava meus olhos e, então, era ainda mais admirável sua forma em minha memória. E a roupa limpa e cheirosa que Donâna trazia personificava minha adorada, e me enchia de uma disposição afetiva e comovente a pressentimentos assustadores e à percepção íntima das tendências morais do mundo.
A TOALHA
Lembro que numa sexta-feira fui à Estância dos M.. Com meu pai e irmãos, e com minha mãe muito apreensiva, fomos recebidos com muita festa e velada cortesia. Na comprida mesa de madeira escura forrada de branco, todos sentados e servidos, vi arranjos de flores e a louça desenhada, os cristais e a prataria arrumada realçando a comida e o vinho, a água, e um grosso suco de pitanga.
Comi apenas o suficiente para enganar quem olhasse, e num momento de conversa mais exaltada, sobre o governo ou a guerra, passei discretamente os meus dedos sobre a toalha da mesa, acariciando sua fibra resistente, alisando o linho. Senti a textura do fio, textura que as mãos dela também sabiam. Quis encostar minha cabeça no pano, cheira-lo e beija-lo. Almejei pousar em seu regaço minha vida e me imaginar em meio a um abraço daquela trama. Desejei fazer-me linha e permanecer ao lado das flores bordadas em sua extensão. Viver naquele meio de tecido, ilusório e agregador, que era o mundo dela, de certa maneira. E já não tinha graça a grande sala, nem a comida, nem os outros.
De volta para casa, mesmo sem tê-la visto, trazia algo de seu comigo.
O SONHO
De volta à minha janela, quis lhe escrever uma poesia, ou um conto, ou dedicar-lhe um romance inteiro.
Não sabia nada de sua vida, nem de seus desejos. Não sabia seu nome sequer.
Certa noite, sonhei. Sonhei com ela, então.
Nessa noite não havia gente na janela, mas duas almas, de mãos dadas, partilhando um mesmo sentimento, descobrindo os campos e o céu, caminhando até o ruidoso Perneirão. E tudo foi tão telúrico e bonito, e tão cheio de paz e satisfação, e de alegria e de compreensão, e tão real, que a mera lembrança dessas coisas sonhadas transformava e expandia o desejo de vive-las até os limites do corpo, condenando minha inércia e apatia. O sonho me comandou a tomar uma resolução.
A LÁGRIMA
Uma manhã, depois de uma noite não sonhada, a música de alguma radiola, perdida em algum pátio, chegou à minha janela, por ela entrando, e despejando em mim seu sentimentalismo melancólico e nodoso, e conjurando a lembrança daquela felicidade sonhada. Em um rompante, cresceu, assim, minha determinação.
Saltei a janela, atravessei o chão centenário dos meus ancestrais, cheguei ao varal. Encontrei sua silhueta por entre as roupas estendidas e o cheiro do sabão. Ela estava atrás de um lençol amarelo já pendurado. Abaixo, olhei seus pés, em pose de bailarina, nas sandálias com tiras de couro, ao lado da cesta de palha com roupas secas.
Não demorou muito, a cortina foi aberta, o palco exposto. Ela me apareceu, enfim. Estávamos face à face e pude ver, então, tão de perto seus olhos castanhos, de cílios escuros. O ar deixando o meu peito fez-me abrir a boca e tentar aspirar alguma esperança de acolhimento. Vi sua boca, larga e morena, encantada, que com um leve movimento me mostrou seus dentes grandes e brancos, semi-ocultos nos seus lábios. Já não pude mais! Quis chorar por ela e por mim, pelo mundo e bela beleza radiante que tinha defronte dos meus olhos, por tudo que me era muito sensível e caro.
Ela me fitou calada, nem surpresa, nem tranqüila. Mirava-me com a gravidade severa dos retos e a dignidade dos destemidos, mas não tendo censura ou raiva em sua fronte, também não havia convite ou sentimento em seu olhar. E o tempo voltou a andar, e a situação chegou ao seu desfecho. Corri, meu Deus, como corri! Feito bicho, fiz em disparada o caminho de volta. Antes do muro de pedras as lágrimas já caiam, mas tive um secreto contentamento, em plena desolação de espírito, pois não verti sob a contemplação de minha adorada o mais íntimo líquido do corpo: A lágrima humana, prova inequívoca do amor divino, resultado da livre escolha dos homens.
O VENTO
Três dias passaram sem que pela janela eu a procurasse. Quando voltei a espia-la, na tarde de uma terça-feira que tinha ido à sorveteria da Cidade, encontrei-a no mesmo lugar de sempre, mas estava então mais serena e cândida do que antes, e encarava o horizonte com esperança e confiança. Soube então, intimamente, que ela estava amando.
A tarde escureceu e sopraram forte as baforadas do vento estival. Permaneci em meu posto, observando-a atentamente. O vento brincava com seus cabelos, ocupando-os de vida e dança. O vento roçava sua pele morena, enchia-a de ar, empurrava seu vestido contra o corpo firme, debatia-se entre as pernas nuas, vibrava obscenidades em seus ouvidos numa transmutação de potência e afago.
Ela saiu do estado de contemplação e se entregou à ventania ardorosamente. Ria e sentia prazer em seu toque, arrepiava-se e corria livre como lufada de ar, transformava-se em ninfa. E eu, que a assistir, do meu abrigo, tamanha sincronia de desígnios, cultivei raiva e frustração, amaldiçoei o vento e suas múltiplas línguas. Desejei ser furação e um sentimento de pouca ternura me atingiu, afligindo o senso imaculado de pureza e virtude que havia criado para ela. Jamais perdoei ao vento, não porque tinha estado com ela, mas porque podia se lançar em vôo e alcança-la. Jamais perdoei ao vento, porque sou calmaria.
A ARTE
Foi então, em março, que vinda da Cidade, minha mãe comprou papeis de carta estampados com flores azuis. Com as mãos tremulas entrei no quarto de meus pais, abri a gaveta de minha mãe e lhe roubei uma das folhas. Tranquei-me em meu quarto. Limpei a superfície de madeira da escrivaninha, aloquei o papelzinho no centro, escolhi a pena e respirei fundo.
Aprendi em algum livro, certa vez, que não existe arte moral ou imoral, conservadora ou revolucionária, contestadora ou aclamativa. Existe arte admirável ou não. As qualificações de uma peça de arte são dadas pelos seus interpretes, seus críticos, condicionados por seus interesses e sua época. Arte por si só não existe, precisa de alguém que lhe atribua significado e profundidade, e foi para os olhos da amada que eu escrevi. Escrevi nesse espírito os versinhos desse amor de iguais. Esses versinhos dela, saídos de mim para ela. E escrevi no papel quem eu sou, mesmo sem me mostrar. Não por prudência, mas por pura covardia, não assinei a cartinha, mas num gesto de carinho coloquei como remetente uma margarida desenhada e manchada por uma gota amaldiçoada de tinta.
Dobrei a folhinha quatro vezes, depois beijei cada face do papel. Escondi meu segredo recém feito nas páginas de um livro, e com a determinação firme dos meus propósitos, desci para jantar.
A NOITE
Esperei o anoitecer, quando o pálido lume das estrelas acalma o mundo, quando a lua dispunha seu alvo manto sobre a Terra, criando sombras e enchendo o solo batido em frente ao alpendre de uma mística claridade sobrenatural.
Andei no caminho enluarado, na cumplicidade dos astros e dos animais da noite. Pisei barro, pedras e grama no meu trajeto noturno. Atravessei cercas e porteiras até alcançar a tela leitosa aberta no quintal vizinho. Ali, a familiar toalha de linho, que já havia sentindo nas pontas dos meus dedos, era uma lua em terra, com luz própria e a atração de uma luxuriosa gravidade.
Do solo arranquei um botão de gérbera vermelho. Prendi com calma entre a corda do varal e a toalha a flor e o papel, meus mensageiros e enviados.
Voltei, mais uma vez, correndo ao quarto. A cabeça em turbilhão de pensamentos e idéias, a alma em grave expectativa...só adormeci com o cinza daquele momento que não é mais noite, mas também ainda não se fez manhã.
A VIDA
Pude vê-la encontrar meu presente, cheirar meu botão de flor, ler meus versos. Vi quando suspirou e sorriu. Vi quando deixando tudo mais lá, no chão, largados, correu até sumir de minha visão.
Algum tempo, então, passei sem vê-la, até que num domingo passou por minha janela, toda vestida de branco, tão branca como as toalhas que lavava, com flores no cabelo, alegria na cara, indo se casar.
Não tornei a vê-la. Nunca mais! Foi-se para sempre, para longe. Teve marido e filhos, casa e cão. Acho eu que ela teve alguma felicidade também.
Passei ainda alguns anos olhando pela janela, até que chegou o meu dia de vestir branco, ter marido e filhos, ter nova casa e mesas compridas arrumadas com louças, cristais, flores e alvas toalhas de linho. Com os anos, bem, acho que tive alguma resignação! Tornei-me, afinal, aquilo que me fiz e pouco deixei ao mundo.
Nesse exato momento, nessa hora da tarde, com as crianças cantando lá fora, escrevo essas coisas bobas e frias, sentada em minha escrivaninha, ressacada de espírito e exausta de corpo, e ainda contemplando sozinha o mundo através de minha janela.
FIM
TEÇAM SEUS COMENTÁRIOS PERTINENTES, ESTÃO TODOS CONVIDADOS A PARTICIPAR DA MESA REDONDA!
“Nada existe realmente a que se possa dar o nome de Arte. Existem >somente artistas”( Ernst Gombrich)
Agora o segundo de abstração vira a mesa e se tranforma no projeto “Mesa redonda cibernética”. Com as grandes aparições de três amigos que, no mínimo, são grandes pensadores, quiça, grande filósofos, nos aventuraremos a debater temas de certa complexidade. Peço, desde já, perdão pela complexidade do tema por mim sugerido frente ao diminuto tempo concedido. Sugiro a quem for propor os próximos temas que proponha: bunda ou futebol.
Eis o tema sugerido:
“A Arte.
A Arte é sempre uma Transgressão social? A arte é sempre vanguardista? Aqui, eu digo que a arte é sempre contestadora da sociedade, dos erros da sociedade. Segundo esta teoria, seria essa a grande razão do Brasil ser um país tão criativo, tão artístico, pois as mazelas sociais são muitas e há muito que se contestar. Não me venham com Marcel Duchamp – privadas e rodas de bicicleta? – nada mais contestador. É a representação total do movimento desconstrutivista da arte que vem tomando o mundo, e, no Brasil, desde a Semana da Arte moderna no Brasil. É a negação da arte comum que se fez durante toda a história, sobretudo quebrando toda aquela idéia parnasiana do momento. Outro conceito que também se segue a esse é: a Arte sempre contesta o último movimento em voga, sobretudo na literatura, sempre reaviva a escola que veio antes da escola passada. Ainda existe a idéia do ciclo de vida da arte, que até onde minha mente alcança, sempre começa na literatura. E toda essa teoria se reflete na Música, pintura, dança, e o que mais queiram interpretar como arte! Quem é artista no Brasil hoje? quem é Poeta? A idéia é: existe arte que não seja contestadora?” Deliciem-se
Eis as opinições:
Erik:
Então, pessoalmente, acho que a melhor forma de afirmar o que é arte, é afirmar o que não é arte. Minha mente pequena, e minha ignorância artística não me permitiram achar alguma arte que não fosse trangressora. Como diria um grande professor de faculdade: todo texto começa com uma definição e/ou conceito – esta diferença só o companheiro Guilherme Andrade é capaz de explicar. Pois bem, imagino que todos vocês, ou os mais conceptualistas, como eu, devem ter perguntado ao Sr. Aurélio Buarque de Holanda o que ele achava sobre a arte. Não que ele seja amigo íntimo, mas não neguei seu convite para uma conversa de mesa de bar. Entre um gole e outro, Disse-me: “Arte, para mim, é a capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria”. Então, por essa afirmação, imagino que ele não seja muito adepto da teoria da arte enquanto transgressão social. Parece que, para ele, só exprimir a idéia, já vale como arte. Então, oratória e dialética, são artes? Sei não. Não que eu queira discordar, mas não creio muito. Mas como conversa de mesa de bar, nunca acaba rápido, principalmente com o meu estimado amigo Aurélio, prosamos mais quinze centavos, e concluímos – mais da parte dele -, que a transgressão não está associada à arte em geral, mas à arte vanguardista. Essa sim, vocês não poderão discordar de mim. Não me venham com argumentos pequenos. O dicionarista disse assim: “Arte de vanguarda. A que apresenta características inovadoras na forma e no conteúdo, opondo-se geralmente aos padrões aceitos pelo consenso geral.” Mas como o tema é arte em geral, voltamos.
Depois de muito discutir sobre isso nas últimas duas semanas, não concordei que a arte seja SEMPRE transgressora, mas também não achei um bom exemplo de uma arte que não o fosse. Por outro lado, se a arte for sempre transgressora, dois pintores de uma mesma escola não poderiam ser artistas, pois apenas um deles teve a idéia trangressora? Também não creio.
Espero, por outro primas, que nenhum de vocês tenha afirmado que os últimos conceitos de arte moderna não são arte. É a maior expressão do desconstrutivismo que vive a arte. Talvez, em raciocínio extensivo, ainda estejamos destruindo alguns conceitos do período passado. Na música, por exemplo, estamos voltando ao rock cru, sem firula, sem muitas notas – vide: strokes. Noutro ângulo, tenho certeza que os senhores acordam que a arte nem sempre é um fenômeno cultural. Digo, sempre é um fenômeno cultural, mas nem sempre tem ligação direta com a sociedade como um todo. Certas vezes são dores da alma, independentes de tempo e espaço. Alguém discorda do conteúdo artístico dos sofrimentos do jovem Werther? (Goethe).
Ao gosto de Maria Odete, as palavras de Vinícius de Moraes: "ARTE E SÍNTESE" Arte não é só "fazer": é também esperar. Isso nos atrapalha um pouco a conceituar arte. A arte tem que ter um período de tempo para se concretizar? Tem coisa que viveu tanto tempo e naum é arte! Também discordo que tenha a ver com o tempo, com a devida vênia do Poetinha. No fim, me parece que a arte é definida no íntimo de cada um. Tudo que te toca fundo na alma pode ser arte. O gole do vinho, uma nota perdida em uma música, um traço mal feito, uma privada. Uma privada!
Maria Odete:
Ah, não... o verde não ta combinando com o resto das cores. Merda! Justo agora qe estava ficando tudo nos conformes! Eu e essa minha mania de me preocupar com a opinião alheia: absorver os ditos alheios, fazer quadros para o alheio. Quem disse que arte tem que ser sempre pra todo mundo?
O meu quadro quem pinta sou eu! Meus traços, meus arcos, minhas cores... minha mistura de cores. Minha. Bem que eu poderia ter pensado nisso antes de jogar o verde na tela. O egoísmo faz parte da arte. Pobre daquele que só se expressa para o próximo – ou pior ainda, que só faz arte para os próximos distantes.
Ah, se essas eles soubessem que a arte é de cada um! Tudo seria tão mais mágico e – ha! – intimista. Claro!!!! A arte sem o sentimento intimo do artista não tem sentido, não tem deleite. Com isso não quero dizer que artes com sentimentos sejam meras expressões sentimentalóides. Muito pelo contrário! Gritos, pesos, retas, quebras bruscas de alinhamento, apelos: acho todos os urros íntimos de pavor e revolta absolutamente atraentes. E deliciosamente íntimos. E são esses permeios íntimos que mexem com os amantes da arte e fazem a sociedade deglutir a arte e evoluir. É... sempre os sentimentos íntimos.
Essa história de segundos e terceiros escolherem cores, versos e notas é, pra mim, uma pseudomorte da arte inteligente. Vejam só o meu exemplo: que raios esse verde foi fazer nessa tela? Não tem nada a ver com a mistura do cinza, azul e lilás que eu coloquei antes! Eeehhnnn... bem... na verdade, até que dá pra quebrar o galho... se eu juntar o peso do cinza com a leveza do verde... ai, que coisa difícil essa tal arte inteligente!
Paulo Victor:
Bom, factum est:
Tô eu sentado no PE-15 meu de cada dia quando abro pela enésima vez Lolita, de Nabokov. Eu já tinha aberto esse livro umas quatro vezes e nunca passava da página oito [eu acho que tem hora pra ler cada livro; toda vez que começava a ler esse, meu hipotálamo dizia pópará] mas dessa vez eu estava resoluto: ou eu comia o livro ou ele me comia [sem trocadilho, sí vú plê].
O texto já começa assim: "Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta." E a narrativa prossegue sob uma constante pátina de erotismo que me fazia sempre virar avidamente a página, ansiando por mais.
Paralelamente, nos antros do YouTube, acabei vendo [quase] sem querer um desses vídeos animados do Alexandre Frota em posições que deixaria qualquer professora de yoga espantada. Os diálogos eram consideravelmente menos profundos que os de Nabokov mas, ahn, creio eu que o objetivo da narrativa era, nesse caso, mais pictórico que qualquer outra coisa. Visualidade rules.
Tendo esses dois textos [?] em mente tentei vê-los como forma de expressão de arte. Encarar o trabalho de Nabokov como arte não é complicado e é, até, muito óbvio. Todavia, esbarrando no filme de Frota -- ainda que o mote inicial, sexo, fosse o mesmo de Lolita -- achei um pouco complicado ver alguma coisa de arte ali. Então, na minha burrice comedida fiquei ponderando como raios um mesmo assunto pode enveredar por caminhos tão distintos, tão díspares. Então me veio à cachola a seguinte questão: quem define o que é arte? O público, certo? Se neguinho vai ao Museo del Prado e fica babando em frente a um Goya ou pega um Alto José do Pinho/Macaxeira pra dançar brega, não seriam essas duas formas diferentes de se apreciar arte? No fim das contas, não é só uma questão de gosto?
Arte de verdade é aquele japonezinho lá da Liberdade sentado, fotografando as coisas, é o que acaricia os ouvidos e beija os olhos. Essa palhaçada de academicismo não ajuda em muita coisa na hora de definir o que é e o que deixa de ser arte. Por que diabos um sapato com uma xícara ao lado é mais arte que Eu Quero Chupar o Seu Canudinho?
Guilherme Andrade Linhares:
"O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.
...Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem ser encantadores.
Isto é um defeito.
Os que encontram belas significações em coisas belas são cultos. Para estes há esperança.
Existem os eleitos, para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.
Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.
...Na realidade, a arte reflete o espectador e não a vida.
...Toda arte é completamente inútil."
Trechos do prefácio do romance único de Oscar Wilde.
A JANELA
Havia a natureza, e o firmamento, e os campos até além da vista, mas além do beiral da janela também havia uma lavadeira, e era ela que sustinha meus olhos.
E todos os dias, nas horas exatas, eu esperava ver suas pernas descendo numa carreira as escadas do fundo da Vila. Ansiava ver seu corpo metido numa fazenda simples guiar meu olhar para o quintal, para as cordas de arame do varal, até as toalhas de linho branco dependuradas, bem abertas e estendidas sob o céu.
Dias de chuva e domingos eu fechava minha janela. Ela nunca aparecia. Fechava meus olhos e, então, era ainda mais admirável sua forma em minha memória. E a roupa limpa e cheirosa que Donâna trazia personificava minha adorada, e me enchia de uma disposição afetiva e comovente a pressentimentos assustadores e à percepção íntima das tendências morais do mundo.
A TOALHA
Lembro que numa sexta-feira fui à Estância dos M.. Com meu pai e irmãos, e com minha mãe muito apreensiva, fomos recebidos com muita festa e velada cortesia. Na comprida mesa de madeira escura forrada de branco, todos sentados e servidos, vi arranjos de flores e a louça desenhada, os cristais e a prataria arrumada realçando a comida e o vinho, a água, e um grosso suco de pitanga.
Comi apenas o suficiente para enganar quem olhasse, e num momento de conversa mais exaltada, sobre o governo ou a guerra, passei discretamente os meus dedos sobre a toalha da mesa, acariciando sua fibra resistente, alisando o linho. Senti a textura do fio, textura que as mãos dela também sabiam. Quis encostar minha cabeça no pano, cheira-lo e beija-lo. Almejei pousar em seu regaço minha vida e me imaginar em meio a um abraço daquela trama. Desejei fazer-me linha e permanecer ao lado das flores bordadas em sua extensão. Viver naquele meio de tecido, ilusório e agregador, que era o mundo dela, de certa maneira. E já não tinha graça a grande sala, nem a comida, nem os outros.
De volta para casa, mesmo sem tê-la visto, trazia algo de seu comigo.
O SONHO
De volta à minha janela, quis lhe escrever uma poesia, ou um conto, ou dedicar-lhe um romance inteiro.
Não sabia nada de sua vida, nem de seus desejos. Não sabia seu nome sequer.
Certa noite, sonhei. Sonhei com ela, então.
Nessa noite não havia gente na janela, mas duas almas, de mãos dadas, partilhando um mesmo sentimento, descobrindo os campos e o céu, caminhando até o ruidoso Perneirão. E tudo foi tão telúrico e bonito, e tão cheio de paz e satisfação, e de alegria e de compreensão, e tão real, que a mera lembrança dessas coisas sonhadas transformava e expandia o desejo de vive-las até os limites do corpo, condenando minha inércia e apatia. O sonho me comandou a tomar uma resolução.
A LÁGRIMA
Uma manhã, depois de uma noite não sonhada, a música de alguma radiola, perdida em algum pátio, chegou à minha janela, por ela entrando, e despejando em mim seu sentimentalismo melancólico e nodoso, e conjurando a lembrança daquela felicidade sonhada. Em um rompante, cresceu, assim, minha determinação.
Saltei a janela, atravessei o chão centenário dos meus ancestrais, cheguei ao varal. Encontrei sua silhueta por entre as roupas estendidas e o cheiro do sabão. Ela estava atrás de um lençol amarelo já pendurado. Abaixo, olhei seus pés, em pose de bailarina, nas sandálias com tiras de couro, ao lado da cesta de palha com roupas secas.
Não demorou muito, a cortina foi aberta, o palco exposto. Ela me apareceu, enfim. Estávamos face à face e pude ver, então, tão de perto seus olhos castanhos, de cílios escuros. O ar deixando o meu peito fez-me abrir a boca e tentar aspirar alguma esperança de acolhimento. Vi sua boca, larga e morena, encantada, que com um leve movimento me mostrou seus dentes grandes e brancos, semi-ocultos nos seus lábios. Já não pude mais! Quis chorar por ela e por mim, pelo mundo e bela beleza radiante que tinha defronte dos meus olhos, por tudo que me era muito sensível e caro.
Ela me fitou calada, nem surpresa, nem tranqüila. Mirava-me com a gravidade severa dos retos e a dignidade dos destemidos, mas não tendo censura ou raiva em sua fronte, também não havia convite ou sentimento em seu olhar. E o tempo voltou a andar, e a situação chegou ao seu desfecho. Corri, meu Deus, como corri! Feito bicho, fiz em disparada o caminho de volta. Antes do muro de pedras as lágrimas já caiam, mas tive um secreto contentamento, em plena desolação de espírito, pois não verti sob a contemplação de minha adorada o mais íntimo líquido do corpo: A lágrima humana, prova inequívoca do amor divino, resultado da livre escolha dos homens.
O VENTO
Três dias passaram sem que pela janela eu a procurasse. Quando voltei a espia-la, na tarde de uma terça-feira que tinha ido à sorveteria da Cidade, encontrei-a no mesmo lugar de sempre, mas estava então mais serena e cândida do que antes, e encarava o horizonte com esperança e confiança. Soube então, intimamente, que ela estava amando.
A tarde escureceu e sopraram forte as baforadas do vento estival. Permaneci em meu posto, observando-a atentamente. O vento brincava com seus cabelos, ocupando-os de vida e dança. O vento roçava sua pele morena, enchia-a de ar, empurrava seu vestido contra o corpo firme, debatia-se entre as pernas nuas, vibrava obscenidades em seus ouvidos numa transmutação de potência e afago.
Ela saiu do estado de contemplação e se entregou à ventania ardorosamente. Ria e sentia prazer em seu toque, arrepiava-se e corria livre como lufada de ar, transformava-se em ninfa. E eu, que a assistir, do meu abrigo, tamanha sincronia de desígnios, cultivei raiva e frustração, amaldiçoei o vento e suas múltiplas línguas. Desejei ser furação e um sentimento de pouca ternura me atingiu, afligindo o senso imaculado de pureza e virtude que havia criado para ela. Jamais perdoei ao vento, não porque tinha estado com ela, mas porque podia se lançar em vôo e alcança-la. Jamais perdoei ao vento, porque sou calmaria.
A ARTE
Foi então, em março, que vinda da Cidade, minha mãe comprou papeis de carta estampados com flores azuis. Com as mãos tremulas entrei no quarto de meus pais, abri a gaveta de minha mãe e lhe roubei uma das folhas. Tranquei-me em meu quarto. Limpei a superfície de madeira da escrivaninha, aloquei o papelzinho no centro, escolhi a pena e respirei fundo.
Aprendi em algum livro, certa vez, que não existe arte moral ou imoral, conservadora ou revolucionária, contestadora ou aclamativa. Existe arte admirável ou não. As qualificações de uma peça de arte são dadas pelos seus interpretes, seus críticos, condicionados por seus interesses e sua época. Arte por si só não existe, precisa de alguém que lhe atribua significado e profundidade, e foi para os olhos da amada que eu escrevi. Escrevi nesse espírito os versinhos desse amor de iguais. Esses versinhos dela, saídos de mim para ela. E escrevi no papel quem eu sou, mesmo sem me mostrar. Não por prudência, mas por pura covardia, não assinei a cartinha, mas num gesto de carinho coloquei como remetente uma margarida desenhada e manchada por uma gota amaldiçoada de tinta.
Dobrei a folhinha quatro vezes, depois beijei cada face do papel. Escondi meu segredo recém feito nas páginas de um livro, e com a determinação firme dos meus propósitos, desci para jantar.
A NOITE
Esperei o anoitecer, quando o pálido lume das estrelas acalma o mundo, quando a lua dispunha seu alvo manto sobre a Terra, criando sombras e enchendo o solo batido em frente ao alpendre de uma mística claridade sobrenatural.
Andei no caminho enluarado, na cumplicidade dos astros e dos animais da noite. Pisei barro, pedras e grama no meu trajeto noturno. Atravessei cercas e porteiras até alcançar a tela leitosa aberta no quintal vizinho. Ali, a familiar toalha de linho, que já havia sentindo nas pontas dos meus dedos, era uma lua em terra, com luz própria e a atração de uma luxuriosa gravidade.
Do solo arranquei um botão de gérbera vermelho. Prendi com calma entre a corda do varal e a toalha a flor e o papel, meus mensageiros e enviados.
Voltei, mais uma vez, correndo ao quarto. A cabeça em turbilhão de pensamentos e idéias, a alma em grave expectativa...só adormeci com o cinza daquele momento que não é mais noite, mas também ainda não se fez manhã.
A VIDA
Pude vê-la encontrar meu presente, cheirar meu botão de flor, ler meus versos. Vi quando suspirou e sorriu. Vi quando deixando tudo mais lá, no chão, largados, correu até sumir de minha visão.
Algum tempo, então, passei sem vê-la, até que num domingo passou por minha janela, toda vestida de branco, tão branca como as toalhas que lavava, com flores no cabelo, alegria na cara, indo se casar.
Não tornei a vê-la. Nunca mais! Foi-se para sempre, para longe. Teve marido e filhos, casa e cão. Acho eu que ela teve alguma felicidade também.
Passei ainda alguns anos olhando pela janela, até que chegou o meu dia de vestir branco, ter marido e filhos, ter nova casa e mesas compridas arrumadas com louças, cristais, flores e alvas toalhas de linho. Com os anos, bem, acho que tive alguma resignação! Tornei-me, afinal, aquilo que me fiz e pouco deixei ao mundo.
Nesse exato momento, nessa hora da tarde, com as crianças cantando lá fora, escrevo essas coisas bobas e frias, sentada em minha escrivaninha, ressacada de espírito e exausta de corpo, e ainda contemplando sozinha o mundo através de minha janela.
FIM
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