Doce emprestado.
Alguns textos presam só a forma. Outros prezam só o conteúdo. Parece que estes últimos sempre se perdem quando tentam descrever minuciosamente os meandros da história, se tornando-se prolixos e sem graça. Um dia, um outro gênio da humanindade traçou um paralelo interessantíssimo: "Se os homens que vêem este filmes com mulheres nuas querem ver apenas sexo, por que os eróticos vendem mais que os pornôs, se naqueles as mulheres usam mais roupas?" A resposta é objetiva: tem que haver espaço para o receptor da mensagem criar as suas alterações na história. É a melhor forma de interação.
Eu mesmo, sempre tento trilhar neste sentido. Histórias mal contadas, emboladas, que imitam a vida. Ninguém quer o realismo cru de "amarelo manga", mas ninguém aguenta mais os filmes ultra-explicados de hollywood. Guarde sua preguiça pensante.
Esse texto segue esta mesma idéia - se assim posso dizer - e foi encomendado ao meu primo Paulo Victor, que acertou em cheio, como de costume, mesmo sem saber o que eu queria. Apenas lhe pedi que escrevesse. Ele me presentou com este incrível e ultrasensível texto: O Doce!. Abram alas:
O doce.
Olhavam os dois para o telefone e era uma quarta-feira feia e aziaga, onde o sol custava muito a aparecer e o mundo parecia vazio como um hiato. Toda a sala era banhada por uma atmosfera pobre e embaraçada, cada objeto arrumado a fim de que parecesse mais caro que a crueza da ralidade mostraria.
E olhavam para o telefone. Preto, grande, o disco numérico engordurado e os parafusos à mostra. Contemplavam-no como se disso dependesse a sanidade do mundo, e a cada instante um deles levanta e verifica o sinal de discar. Funciona. Funciona e não toca.
Anoitece. Não se preocupam em acender a luz. O mais novo (um era velho e de barba branca, usando uns óculos caríssimos, o outro era menos velho um pouco, a aparência acovardada por um terno impecável) tateou no escuro uma garrafa de whisky barato e tomou um gole curto. Estendeu ao velho, que recusou polidamente mas sem dizer palavra.
O bem vestido risca um fósforo e acende um cigarro. Da tragada, a fumaça traça seu caminho nitidamente pelos fachos débeis de luz lançados pelo poste no outro lado da rua janela adentro.
O contempla a fumaça esvaindo-se. E o telefone. Este, mudo, apático, feíssimo e pesado como uma baleia pré-histórica. Emite, o velho, grunhidos de descontentamento a intervalos simétricos, coisa da idade, meu filho, tem tempo em que tudo acontece à nossa revelia.
Enfim, toca o telefone. Era inexorável. O mais novo fita o velho, que o fita. E olham para o telefone. O rapaz avança, puxa o monofone e responde sempre com palavras medidas à régua. Desliga. Encara o barbudo e vê os cabelos despenteados, a barba desgrenhada e o odor nauseabundo originado na carência de água.
Arruma laboriosamente o nó da gravata, sem espelho mesmo, que nesse lugar é dificil de achar, diabo de povo que não arruma o lugar antes de mandar a gente fazer o serviço, querem que a gente fique aqui um tempo do tamanho do mundo e não botam a merda de um espelho no quarto.
Do paletó, tira um Taurus muito usado mas muito limpo e cuidado. Dá um tiro na têmpora do velho, que morre de olhos abertos e com a expressão perfeita de asco estampada na cara. Começara a apodercer ainda em vida.
Alisou o paletó diligentemente, como fazia tudo mais nessa vida, guardou o revólver e sentou. Tateia novamente a garrafa e sorve outro gole desesperado. A bebida é amarga, pérfida, mefistofélica. Azeda. Aziaga. Triste. Contempla a expressão do velho e os lábios arroxeados. O cheiro putrefato e goiabas podres lhe põe fogo nas narinas. É ruim, tudo muito ruim, este caralho de vida e outro velho tombado no chão, e se é para tombar outra vez, tombo eu. Toma nas mãos o revólver ainda quente e enfia na boca como faria a um doce e puxa o gatilho, livre e feliz.
Eu mesmo, sempre tento trilhar neste sentido. Histórias mal contadas, emboladas, que imitam a vida. Ninguém quer o realismo cru de "amarelo manga", mas ninguém aguenta mais os filmes ultra-explicados de hollywood. Guarde sua preguiça pensante.
Esse texto segue esta mesma idéia - se assim posso dizer - e foi encomendado ao meu primo Paulo Victor, que acertou em cheio, como de costume, mesmo sem saber o que eu queria. Apenas lhe pedi que escrevesse. Ele me presentou com este incrível e ultrasensível texto: O Doce!. Abram alas:
O doce.
Olhavam os dois para o telefone e era uma quarta-feira feia e aziaga, onde o sol custava muito a aparecer e o mundo parecia vazio como um hiato. Toda a sala era banhada por uma atmosfera pobre e embaraçada, cada objeto arrumado a fim de que parecesse mais caro que a crueza da ralidade mostraria.
E olhavam para o telefone. Preto, grande, o disco numérico engordurado e os parafusos à mostra. Contemplavam-no como se disso dependesse a sanidade do mundo, e a cada instante um deles levanta e verifica o sinal de discar. Funciona. Funciona e não toca.
Anoitece. Não se preocupam em acender a luz. O mais novo (um era velho e de barba branca, usando uns óculos caríssimos, o outro era menos velho um pouco, a aparência acovardada por um terno impecável) tateou no escuro uma garrafa de whisky barato e tomou um gole curto. Estendeu ao velho, que recusou polidamente mas sem dizer palavra.
O bem vestido risca um fósforo e acende um cigarro. Da tragada, a fumaça traça seu caminho nitidamente pelos fachos débeis de luz lançados pelo poste no outro lado da rua janela adentro.
O contempla a fumaça esvaindo-se. E o telefone. Este, mudo, apático, feíssimo e pesado como uma baleia pré-histórica. Emite, o velho, grunhidos de descontentamento a intervalos simétricos, coisa da idade, meu filho, tem tempo em que tudo acontece à nossa revelia.
Enfim, toca o telefone. Era inexorável. O mais novo fita o velho, que o fita. E olham para o telefone. O rapaz avança, puxa o monofone e responde sempre com palavras medidas à régua. Desliga. Encara o barbudo e vê os cabelos despenteados, a barba desgrenhada e o odor nauseabundo originado na carência de água.
Arruma laboriosamente o nó da gravata, sem espelho mesmo, que nesse lugar é dificil de achar, diabo de povo que não arruma o lugar antes de mandar a gente fazer o serviço, querem que a gente fique aqui um tempo do tamanho do mundo e não botam a merda de um espelho no quarto.
Do paletó, tira um Taurus muito usado mas muito limpo e cuidado. Dá um tiro na têmpora do velho, que morre de olhos abertos e com a expressão perfeita de asco estampada na cara. Começara a apodercer ainda em vida.
Alisou o paletó diligentemente, como fazia tudo mais nessa vida, guardou o revólver e sentou. Tateia novamente a garrafa e sorve outro gole desesperado. A bebida é amarga, pérfida, mefistofélica. Azeda. Aziaga. Triste. Contempla a expressão do velho e os lábios arroxeados. O cheiro putrefato e goiabas podres lhe põe fogo nas narinas. É ruim, tudo muito ruim, este caralho de vida e outro velho tombado no chão, e se é para tombar outra vez, tombo eu. Toma nas mãos o revólver ainda quente e enfia na boca como faria a um doce e puxa o gatilho, livre e feliz.

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