Jarros Chineses, Beijos Franceses e Divorciados Cortêses
Ele olhou fundo nos olhos dela e disse:
- Pronto, Joana, só falta isso. Então, quem fica com o Jarro Francês? – parou um pouco, pensativo - Você lembra da viagem de Paris com o João e a Bete, seus primos? Eles são um saco, você tem que admitir. Mas quando eles nos deixavam sozinhos, nós aproveitamos bem a viagem. Foi lá a primeira vez que você me deu aquele beijo Francês que me deixava louco e fez aquele...
- Marcelo, por favor – bradou ela interrompendo-o - não vamos relembrar essa parte. Estamos tentando dividir as coisas.
- Tudo bem, você pode levar este jarro velho. Você que comprou mesmo. Sempre teve uma queda por velharia. – falou em tom de deboche.
- Primeiro, isto é um Jarro Chinês e é caríssimo. Segundo, pelo menos não fui eu quem comprei aquela luminária cafonérrima numa feirinha de rua no bairro italiano. Por favor, Marcelo!
- Eu sempre tive bom gosto e, aliás, apesar de achar feio, acabei de lembrar fui eu que comprei este jarro. – disse tomando o jarro da sua mão.
- Você me deu de presente! – retrucou ela, tomando-o novamente
- Mas fui eu que paguei! – disse ele pegando o jarro e colocando-o na caixa
- Foi por isto que não conseguimos ficar juntos. Você é um salafrário! – gritou ela enquanto ele apanhava a última caixa.
Após partilha não tinham se encontrado nenhuma vez. Mesmo vivendo na mesma cidade, conseguiram passar 3 anos sem se encontrar. Ele sempre pensava nela. E vice-versa. Mas eram bastante orgulhosos para procurar um ao outro.
Ela tinha voltado para a vida comum. Pela manhã, corria 2 horas na esteira da academia para perder o peso que ganhava nas noites solitárias de depressão. Comprava vários potes de sorvete e tomava à noite enquanto via pela décima quinta vez “O diário de Briget jones”. Sempre cantava baixinho ‘All By myself”, e, quase sempre nessa hora, a sua mãe, já idosa, passava e comentava:
- Minha filha, se levante, vá procurar o que fazer, ele não merece isso. Ele era um patife! Um salafrário! Um canalha! Ele merecia que você cuspisse nele! Que todo mundo cuspisse nele! Aquele Crápula – dizia a velha com cara de nojo.
Ele voltou a trabalhar e passava as noites na internet conversando com mulheres do Japão. Tinha o sonho de ir para o Japão, fazer uma pós-graduação em arquitetura, mas não tinha dinheiro. Ficava alimentado o sonho conversando com Japonesas pela internet. Passou a morar sozinho depois da partilha. O porteiro nunca o viu entrando com uma mulher. O vizinho do prédio da frente espalhava o boato de que ele era Gay.
Uma noite daquelas, depois de muita reclamação da mãe, ela se arrumou como não fazia há 3 anos. Deu uma volta na cidade à procura de algo interessante, mas não encontrou nada. Passou na locadora, alugou um filme diferente e, para passar o tempo, passou no supermercado para comprar o vinho, enquanto esperava a hora da mãe dormir.
Ele, depois de muita insistência dos amigos do trabalho, aceitou o happy-hour depois do expediente. Tomou um chope, mas, mesmo rodeado de tanta gente, sentiu-se triste e solitário. Inventou uma história de que tinha marcado um encontro e largou os amigos. Resolveu ir comprar uma pizza.
As mãos coincidentemente encontraram a mesma garrafa de Borgonha. Era o vinho que os dois costumavam tomar. Entreolharam-se por 10 segundos e ele afirmou perguntando:
- Joana!?
Ela respondeu perguntando:
- Marcelo!?
Os doís riram-se.
- Por onde você tem andado? Você está... bem? – perguntou ela, com medo da resposta.
- Estou ótimo. Estou comprando esta garrafa de vinho. Tenho companhia em casa hoje. Os amigos do trabalho. Sempre temos muitas festas... Você, como anda. Também comprando vinho? – disse ele num tom meio duvidoso
- Nós temos um casal de amigos que cozinha muito bem. Hoje eles decidiram cozinhar lá em casa. – respondeu ela, para retrucar.
- Nós? – repetiu ele – Ah! Entendi.
- Pois é, Marcelo, as coisas mudam. O tempo passa.
- Eu também estou bem acompanhado, não de preocupe, qualquer dia chamo “vocês” para jantarem lá em casa também. – disse ele aumentando a história.
- Pode chamar. Tenho que ir, se não eles me matam. Devem estar morrendo de fome. Passar bem, Marcelo.
Cumprimentaram -se estranhamente e ela se virou e apressou o passo. Tinha que fazer parecer que um belo jantar a esperava .
Ele chegou em casa e quando abriu a porta e encarou a casa solitária. Soltou todo ar que tinha nos pulmões, dando uma bufada de raiva e inveja. Comeu a pizza, tomou o Borgonha e tentou assistir um programa qualquer, mas não conseguiu de concentrar. Só conseguia que naquele momento ela estava aplicando o Beijo Francês que o deixava louco em outra pessoa.
Ela, como chegou em casa antes do tempo, sua mãe estava na sala.
- Minha filha. Não arranjou o que fazer, você não tem jeito mesmo. Já disse que você tem que procurar um psicó...
- Mamãe, vai dormir vai – falou empurrando a senhora com jeito.
Debruçou-se no sofá, abriu o Borgonha, e pensando nele, ficou assistindo Guerra dos Sexos.
- Pronto, Joana, só falta isso. Então, quem fica com o Jarro Francês? – parou um pouco, pensativo - Você lembra da viagem de Paris com o João e a Bete, seus primos? Eles são um saco, você tem que admitir. Mas quando eles nos deixavam sozinhos, nós aproveitamos bem a viagem. Foi lá a primeira vez que você me deu aquele beijo Francês que me deixava louco e fez aquele...
- Marcelo, por favor – bradou ela interrompendo-o - não vamos relembrar essa parte. Estamos tentando dividir as coisas.
- Tudo bem, você pode levar este jarro velho. Você que comprou mesmo. Sempre teve uma queda por velharia. – falou em tom de deboche.
- Primeiro, isto é um Jarro Chinês e é caríssimo. Segundo, pelo menos não fui eu quem comprei aquela luminária cafonérrima numa feirinha de rua no bairro italiano. Por favor, Marcelo!
- Eu sempre tive bom gosto e, aliás, apesar de achar feio, acabei de lembrar fui eu que comprei este jarro. – disse tomando o jarro da sua mão.
- Você me deu de presente! – retrucou ela, tomando-o novamente
- Mas fui eu que paguei! – disse ele pegando o jarro e colocando-o na caixa
- Foi por isto que não conseguimos ficar juntos. Você é um salafrário! – gritou ela enquanto ele apanhava a última caixa.
Após partilha não tinham se encontrado nenhuma vez. Mesmo vivendo na mesma cidade, conseguiram passar 3 anos sem se encontrar. Ele sempre pensava nela. E vice-versa. Mas eram bastante orgulhosos para procurar um ao outro.
Ela tinha voltado para a vida comum. Pela manhã, corria 2 horas na esteira da academia para perder o peso que ganhava nas noites solitárias de depressão. Comprava vários potes de sorvete e tomava à noite enquanto via pela décima quinta vez “O diário de Briget jones”. Sempre cantava baixinho ‘All By myself”, e, quase sempre nessa hora, a sua mãe, já idosa, passava e comentava:
- Minha filha, se levante, vá procurar o que fazer, ele não merece isso. Ele era um patife! Um salafrário! Um canalha! Ele merecia que você cuspisse nele! Que todo mundo cuspisse nele! Aquele Crápula – dizia a velha com cara de nojo.
Ele voltou a trabalhar e passava as noites na internet conversando com mulheres do Japão. Tinha o sonho de ir para o Japão, fazer uma pós-graduação em arquitetura, mas não tinha dinheiro. Ficava alimentado o sonho conversando com Japonesas pela internet. Passou a morar sozinho depois da partilha. O porteiro nunca o viu entrando com uma mulher. O vizinho do prédio da frente espalhava o boato de que ele era Gay.
Uma noite daquelas, depois de muita reclamação da mãe, ela se arrumou como não fazia há 3 anos. Deu uma volta na cidade à procura de algo interessante, mas não encontrou nada. Passou na locadora, alugou um filme diferente e, para passar o tempo, passou no supermercado para comprar o vinho, enquanto esperava a hora da mãe dormir.
Ele, depois de muita insistência dos amigos do trabalho, aceitou o happy-hour depois do expediente. Tomou um chope, mas, mesmo rodeado de tanta gente, sentiu-se triste e solitário. Inventou uma história de que tinha marcado um encontro e largou os amigos. Resolveu ir comprar uma pizza.
As mãos coincidentemente encontraram a mesma garrafa de Borgonha. Era o vinho que os dois costumavam tomar. Entreolharam-se por 10 segundos e ele afirmou perguntando:
- Joana!?
Ela respondeu perguntando:
- Marcelo!?
Os doís riram-se.
- Por onde você tem andado? Você está... bem? – perguntou ela, com medo da resposta.
- Estou ótimo. Estou comprando esta garrafa de vinho. Tenho companhia em casa hoje. Os amigos do trabalho. Sempre temos muitas festas... Você, como anda. Também comprando vinho? – disse ele num tom meio duvidoso
- Nós temos um casal de amigos que cozinha muito bem. Hoje eles decidiram cozinhar lá em casa. – respondeu ela, para retrucar.
- Nós? – repetiu ele – Ah! Entendi.
- Pois é, Marcelo, as coisas mudam. O tempo passa.
- Eu também estou bem acompanhado, não de preocupe, qualquer dia chamo “vocês” para jantarem lá em casa também. – disse ele aumentando a história.
- Pode chamar. Tenho que ir, se não eles me matam. Devem estar morrendo de fome. Passar bem, Marcelo.
Cumprimentaram -se estranhamente e ela se virou e apressou o passo. Tinha que fazer parecer que um belo jantar a esperava .
Ele chegou em casa e quando abriu a porta e encarou a casa solitária. Soltou todo ar que tinha nos pulmões, dando uma bufada de raiva e inveja. Comeu a pizza, tomou o Borgonha e tentou assistir um programa qualquer, mas não conseguiu de concentrar. Só conseguia que naquele momento ela estava aplicando o Beijo Francês que o deixava louco em outra pessoa.
Ela, como chegou em casa antes do tempo, sua mãe estava na sala.
- Minha filha. Não arranjou o que fazer, você não tem jeito mesmo. Já disse que você tem que procurar um psicó...
- Mamãe, vai dormir vai – falou empurrando a senhora com jeito.
Debruçou-se no sofá, abriu o Borgonha, e pensando nele, ficou assistindo Guerra dos Sexos.

7 Comments:
As coisas muitas vezes são bem assim mesmo....por isso o negócio é ser franco e direto....quantas "pessoas da nossa vida" já não perdemos por besteiras, orgulho, vergonha de um sentimento....o final dessa cronica podia ser diferente....e citando um final possivel, tomo de empréstimo os versos do poeta...
"Depois o dois deram-se os braços como há muito tempo não se
usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se
abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhanca toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se
ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz" C. Buarque.
(...)o menino levanta da cadeira e aplaude.
ora ora ora... Temos um cronista por aqui.... E incrível tituleiro!!
Quero dizer que meu personagem preferido na história toda foi o Borgonha.
É foda, supermercado, Borgonha na mão... Aí tem.
Eiiiii... eu AMEI essa crônica ó!!! Gosti mesmo... =D ja vi q vou virar leitora assídua.. e digo logo q concordo com a Lora sobre a personagem principal da história!!!! Um xêro, Odete (ah, coloquei assim pq nao sei como colocar meu nome em cima como "Guilerme" e a ora fizeram... hahahaha).
Adorei do princípio ao fim.. p começar as implicancias q rolam durante o final do relacionamento, depois a mulher assistindo mil vezes aquele filme e cantarolando love songs cretinas.. Não acho que o final deveria ser outro não.. Primeiro pq é preciso um período digerindo a ressaca do fim do relacionamento.. é que nem quando quebramos o braço, dói p caralho, é incomodo ,não conseguimos fazer muitas coisas que nos dá prazer,porém depois da recuperação o lugar que é calcificado fica mais forte que antes de quebrar.. e se a pessoa não tiver paciencia para esperar calcificar e ficar estrapolando ,o local machucado nunca se recuperará (não sei como consegui fazer essa analogia, vou começar a escrever letra de brega),assim como o casal precisa passar por isso.. e também qto a mostrar uma falsa felicidade.. infelizmente a natureza do homem é essa após um término de relacionamento.. a fortaleza de um acaba sendo a fraqueza do outro e vice-versa... às vezes o amor precisa acabar antes do relacionamento acabar,mas o contrário também pode acontecer.. O melhor eh curtir a roedeira, e que não é necessário amar só uma vez.. pelo contrário, aproveita pra analisar as cagadas (jutinho eu sei q tu odeia termos xulos) pra não repeti-las..
eh isso :)
Que blog bom de ler...
...nem sempre jarros chineses inspiram poesia...
Post a Comment
<< Home