Vida sem Enxertos!
Segua, sendo desnecessário apresentações ou correções, o texto do meu grande amigo Guilherme Linhares.
"Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores!"
V. Hugo
Perguntaram-me, certa vez, da minha infância e dos meus jovens dias, qual a mais remota lembrança, que com carinho recordava em minha velhice; aos gritos e pontapés corri com o demônio indagador....mas no fim o mal já estava feito, e fiquei a examinar o próprio íntimo, os sentimentos, as reações que tive, puxando pela memória o início da minha existência, e acredite, de muitas coisas que estavam esquecidas me relembrei, e de certos dias idos, como aquele que bebi chá mesmo sem gostar, com nostalgia e saudade, enchi a tela escura da noite não dormida.
Por que havia sido eu tão feliz então? De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Sentir que estava ligada ao chá de abstrações, me recordo! Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa.
Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo, pois, de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. Não me iludo, é claro que a verdade que busco não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intacto e fiel à minha disposição e conveniência, para um esclarecimento decisivo.
Deponho a tirana taça e volto ao meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza quando o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro e nublado a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não meu amigo; antes criar!! Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode da realidade e fazer entrar na sua luz medida.
E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidencia da sua felicidade, da sua realidade ante a qual as outras desvaneciam. Quero, intensamente, tentar faze-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma nova luz ou atrativo. Peço, resignadamente, ao meu espírito um esforço a mais, que me traga mais uma vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar capta-la, afasto todo obstáculo, toda idéia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da pessoa vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fadiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, voltar ao mundo, a refazer-se antes de uma tentativa suprema.
Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas até hoje aquilo sobe lentamente, e sinto a resistência e ouço o rumor da distância de um mundo atravessado.
Por certo, o que também pulsa ora dentro de mim, é o palpitar no fundo do ser da imagem, a recordação visível que, ligada a esse sabor, tão doce meu Deus!, tenta segui-lo ao longo da vida até chegar a mim.
Lembro então das vitórias-régias na lagoa dos fundos, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradas e a igreja e toda a Vila do Cedro e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez saiu, cidade, campos, jardins, da minha taça de chá, naquele dia passado, revivido na alma, na noite de hoje.
"Oh! Souvenirs! Printemps! Aurores!"
V. Hugo
Perguntaram-me, certa vez, da minha infância e dos meus jovens dias, qual a mais remota lembrança, que com carinho recordava em minha velhice; aos gritos e pontapés corri com o demônio indagador....mas no fim o mal já estava feito, e fiquei a examinar o próprio íntimo, os sentimentos, as reações que tive, puxando pela memória o início da minha existência, e acredite, de muitas coisas que estavam esquecidas me relembrei, e de certos dias idos, como aquele que bebi chá mesmo sem gostar, com nostalgia e saudade, enchi a tela escura da noite não dormida.
Por que havia sido eu tão feliz então? De onde me teria vindo aquela poderosa alegria? Sentir que estava ligada ao chá de abstrações, me recordo! Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção de sua causa.
Bebo um segundo gole em que não encontro nada de mais que no primeiro, um terceiro que me traz um pouco menos que o segundo. É tempo, pois, de parar, parece que está diminuindo a virtude da bebida. Não me iludo, é claro que a verdade que busco não está nela, mas em mim. A bebida a despertou, mas não a conhece, e só o que pode fazer é repetir indefinidamente, cada vez com menos força, esse mesmo testemunho que não sei interpretar e que quero tornar a solicitar-lhe daqui a um instante e encontrar intacto e fiel à minha disposição e conveniência, para um esclarecimento decisivo.
Deponho a tirana taça e volto ao meu espírito. É a ele que compete achar a verdade. Mas como? Grave incerteza quando o espírito se sente ultrapassado por si mesmo, quando ele, o explorador, é ao mesmo tempo o país obscuro e nublado a explorar e onde todo o seu equipamento de nada lhe servirá. Explorar? Não meu amigo; antes criar!! Está em face de qualquer coisa que ainda não existe e a que só ele pode da realidade e fazer entrar na sua luz medida.
E recomeço a me perguntar qual poderia ser esse estado desconhecido, que não trazia nenhuma prova lógica, mas a evidencia da sua felicidade, da sua realidade ante a qual as outras desvaneciam. Quero, intensamente, tentar faze-lo reaparecer. Retrocedo pelo pensamento ao instante em que tomei a primeira colherada de chá. Encontro o mesmo estado, sem nenhuma nova luz ou atrativo. Peço, resignadamente, ao meu espírito um esforço a mais, que me traga mais uma vez a sensação fugitiva. E para que nada quebre o impulso com que ele vai tentar capta-la, afasto todo obstáculo, toda idéia estranha, abrigo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da pessoa vizinha. Mas sentindo que meu espírito se fadiga sem resultado, forço-o, pelo contrário, a aceitar essa distração que eu lhe recusava, a pensar em outra coisa, voltar ao mundo, a refazer-se antes de uma tentativa suprema.
Depois, por segunda vez, faço o vácuo diante dele, torno a apresentar-lhe o sabor ainda recente daquele primeiro gole e sinto estremecer em mim qualquer coisa que se desloca, que desejaria elevar-se, qualquer coisa que teriam desancorado, a uma grande profundeza; não sei o que seja, mas até hoje aquilo sobe lentamente, e sinto a resistência e ouço o rumor da distância de um mundo atravessado.
Por certo, o que também pulsa ora dentro de mim, é o palpitar no fundo do ser da imagem, a recordação visível que, ligada a esse sabor, tão doce meu Deus!, tenta segui-lo ao longo da vida até chegar a mim.
Lembro então das vitórias-régias na lagoa dos fundos, e a boa gente da aldeia e suas pequenas moradas e a igreja e toda a Vila do Cedro e seus arredores, tudo isso que toma forma e solidez saiu, cidade, campos, jardins, da minha taça de chá, naquele dia passado, revivido na alma, na noite de hoje.

1 Comments:
É chá de cogumelo mesmo... quem diria, clareza solar do mundo num gole de chá!
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