Monday, June 11, 2007

Novamente!

Complexo de Dulcineas mal ajustadas! - Não há vida sem Dulcinea

Tropecei numa tautologia de amor, e deixei que Quixote me guiasse...
Dulcinea é a principal atração dessa história. Na cabeça de Don Quixote, ela é a razão de tudo. Ele enfrenta dragões – cata ventos. É por Dulcinea del Toboso. Sem ela, o cavaleiro errante seria um senhor sem histórias para contar. Um sonho desperdiçado.
É neste esteio que se sustenta esta crônica, pois a vida é isso: Um complexo de dulcineas mal ajustadas.
Ninguém dá um passo sem um motivo. O ser humano é movido a interesses. Nem sempre interesses mesquinhos, mas sempre interesses. Respira para viver. Vive por uma causa. Cada um tem a sua Dulcinea. É por ela que acordamos.
"O que seria de nós se não fosse a ilusão que nos trouxe até aqui?", disse o poeta. Vivemos destas pequenas ilusões. Algumas delas até são alcançadas. É o momento em que o sonho se desloca para outro lugar. Mas o que interessa é que sempre vivemos em busca de um sonho. Trabalha para ter dinheiro e talvez alcançar aquilo que anseia. Ninguém trabalha apenas para ter dinheiro. Quem diz que trabalha apenas para ter dinheiro é por que quer mostrar para alguém que tem dinheiro, quer impressionar, mas o objetivo mediato nunca é apenas “ter dinheiro”. Essa é uma das facetas da Dulcinea Profissional. Cada um tem a sua.
Por outro lado, tem gente que trabalha para se realizar mesmo. Dizem as más línguas que o trabalho enobrece o homem. Trabalha por que ama o que faz, por que vê naquilo alguma chance de mudar a sociedade. Tem gente que trabalha de graça. De graça não, apenas não recebe dinheiro. Mas trabalha esperando algo em troca. Seja um lugar no céu, seja o reconhecimento da sua vizinhança social. Essa é uma mistura da Dulcinea Profissional com a Dulcinea Social.
A Dulcinea Social é isso. Se o trabalho é chato e você não tem, ou acha que não tem, uma Dulcinea Profissional, vive na expectativa de que algo de bom aconteça em algum momento da sua vida. Vai levando a vida com a barriga por que tem certeza que, alguma hora, as coisas vão melhorar. Espera que de repente ganhe na loteria, ou apareça uma mulher linda e rica. Esse é o ponto de encontro entre a Dulcinea Social e a Dulcinea propriamente dita, que é a Dulcinea do Amor.
Na realidade, numa cadeia de raciocínio lógico extenso, todas as Dulcineas são, indiretamente, a Dulcinea do Amor. Todos, no fundo, no fundo, nascem, respiram, trabalham, brincam, andam, tentam, voltam, caem, levantam, comem, dormem, passam mal, lutam contra doença, vivem; por que sabem que um dia encontrarão sua Dulcinea. Na verdade, nem sempre encontram, mas vivem nesta expectativa. Poucos admitiriam que vivem por sua Dulcinea. Mas todos queremos ter uma vida tranqüila quando a Dulcinea da morte nos vier buscar.
No aguardo da Dulcinea da Morte, percebemos que não há vida sem Dulcinea. Um homem que vive sem sonhos – se existir essa possibilidade – é um homem morto.
Pós Scritum.: Quem quiser, pode ler o texto substituindo Don quixote por John Lenon e Dulcinea por Yoko Ono! Ou Don quixote por Los Hermanos e Dulcinea por Ana Júlia. Ou Don quixote por Dirceu e Dulcinea por Marília. Etc...

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