Marcelo e Joana, Move in em Hebraico
Marcelo morava sozinho. Não era lá um publicitário bem sucedido, mas conseguira comprar um apartamento de dois quartos, até bem localizado. Sua sala não era muito convencional: ostentava uma parede repleta de bugingangas que Marcelo trazera do México quando fora passar uma temporada por lá, tentando ganhar a vida. Terminou vendendo sanduíche natural em Guadalajara e adjacências. Cadeiras, sombreiros, garrafas, pimentas, tudo que pudesse imaginar, pregado na parede. Marcelo não escondia seu fetiche com o México.
A Joana ainda morava com a mãe, uma senhora meio ranzinza que não gostava muito do Marcelo. “Meio ranzinza” é um eufemismo exagerado, a mãe da Joana era um horror. Se o Diabo fosse mandar uma de suas invenções para um concurso, mandaria aquela velha.
Um dia qualquer – era uma sexta-feira de lua cheia -, sentados no sofá da casa dele assistindo, talvez pela décima sétima vez, uma linda mulher ( o filme preferido da Joana)...
- Marcelo – com aquela voz mansa que só mulheres fazem, e quando querem pedir algo – Já estamos juntos há seis meses, né!?
- Puxa, seis meses né? – disse ele, perceptivelmente, só para não ficar calado.
- Seis meses é um bom tempo, não é Cecelo? – disse ela enquanto “...
- É – disse ele, meio muxôxo.
- Parece que está ficando sério isso né!?
Desta vez, o Marcelo preferiu ficar calado mesmo. Já sabia para onde iria rumar aquela prosa.
Ela demorou mais um pouco, fez umas caras e bocas, deu um longo suspiro e...
- Aprendi uma expressão nova na aula de hebraico – disse, pedindo que ele perguntasse.
- É? – ficou aliviado por que a conversa tinha tomado outro caminho – e qual foi?
- Masquilexe.
- Como?
- MASQUILEXE.
- que significa?
- Tipo move in, em inglês.
Marcelo ficou olhando perplexo, com uma interrogação estampada na testa.
-Se mudar, Marcelo Antônio, morar junto! Trocar chaves!
Fez-se aquele silêncio que parecia interminável. Aquele silêncio que acontece quando o público espera a morte de alguém na câmara de gás; que constrangeria até manequins de lojas de departamentos.
Marcelo pensou, pensou, pensou. Não poderia estragar aquele momento mágico por que passava, mas também não sabia ainda se já era a hora de morarem juntos. Aquele seria um grande passo para qualquer relação. Ele pensou na liberdade que iria deixar de usufruir, que não poderia mais ver os jogos do “Sport Clube do Recife” aos domingos, pois ela iria querer ver “Sex and the city”. Apostava que ela iria querer trocar o “Fiddy” de lugar (uma horrível imitação de gambá que ganhara de uma namorada no México e ficava bem no centro da sala, usado como apoio para cerveja). Depois pensou como seria acordar, ir tomar banho e encontrar calcinhas penduradas no registro do banheiro.
E tentou dizer: “Não, eu ainda não estou pronto. Eu gosto muito de você, mas imagino que ainda não seja a hora de morarmos juntos. Ainda não estamos preparados para atingir este nível”. Tentou. Mas só saiu um “nnnpppph”. O que deixou a Joana ainda mais hesitante.
Depois pensou como seria agradável ser despertado por carinhosos beijos. Sentir, logo pela manhã, o cheiro inebriante daquela mulher. Chegar em casa a noite, cansado do trabalho, e poder assistir toda a segunda temporada do Mcgyver, deitado no colo dela, sob seus cafunés.
E tentou dizer “tudo bem, minha querida. Isso era tudo que eu esperava ouvir de você. Vamos morar juntos. Tenho certeza que seremos muito felizes. Você gosta do Mcgyver?”. Só tentou. O que se ouviu foi: “xxxuunsz”, ou algum outro som bem indefinido.
Qualquer pessoa com uma boa percepção sentimental-fisiológica, se estivesse ali presente, poderia notar o sentimento de raiva e decepção da Joana de deslocando do coração para o intestino. Observaria a mensagem, sinapse a sinapse, sendo mandada para seu cérebro e seus olhos, em resposta, ficando avermelhados. Ela ficou olhando para ele, com cara de carrasco.
Discutiram alguns segundos com os olhos. A luta era para ver quem iria quebrar o silêncio. O Marcelo não se agüentou, e mesmo sem ter qualquer coisa para dizer...
-Huanacho. – e, estranhamente, não disse mais nada.
A Joana franziu a testa e ficou esperando ele terminar a frase.
E o Marcelo nada.
- Huanacho o que, Marcelo Antônio? – em tom um pouco mais severo.
- “Huanacho” é uma expressão que os moradores da cidade de Guanajanato usam quando se sentem nervosos demais para dizer algo.
Joana levantou-se e resvalou, não intencionalmente, no gambá, derrubando um resto de pipoca no chão. Enquanto se dirigia à cozinha, rosnou:
- “Huanacho”, Marcelo Antônio. Ninguém te entende. Não sei o que faço com você.
Na exata hora em que a Julia Roberts encara um prato de escargot, a Joana saiu da cozinha armada com soqueira, baladeira e metralhadora, e preparou-se para executá-lo – tudo em sentido figurado, claro. Fez um olhar “vocÊ não tem escapatória” e deu um ultimato no rapaz com um argumento que até hoje ele não teve coragem de compartilhar conosco.
Duas semanas depois quem chegasse na casa do Marcelo poderia encontrar um estojo de maquiagem sobre a cabeça de Fiddy ou absorventes na farmácia de seu banheiro.
A Joana ainda morava com a mãe, uma senhora meio ranzinza que não gostava muito do Marcelo. “Meio ranzinza” é um eufemismo exagerado, a mãe da Joana era um horror. Se o Diabo fosse mandar uma de suas invenções para um concurso, mandaria aquela velha.
Um dia qualquer – era uma sexta-feira de lua cheia -, sentados no sofá da casa dele assistindo, talvez pela décima sétima vez, uma linda mulher ( o filme preferido da Joana)...
- Marcelo – com aquela voz mansa que só mulheres fazem, e quando querem pedir algo – Já estamos juntos há seis meses, né!?
- Puxa, seis meses né? – disse ele, perceptivelmente, só para não ficar calado.
- Seis meses é um bom tempo, não é Cecelo? – disse ela enquanto “...
- É – disse ele, meio muxôxo.
- Parece que está ficando sério isso né!?
Desta vez, o Marcelo preferiu ficar calado mesmo. Já sabia para onde iria rumar aquela prosa.
Ela demorou mais um pouco, fez umas caras e bocas, deu um longo suspiro e...
- Aprendi uma expressão nova na aula de hebraico – disse, pedindo que ele perguntasse.
- É? – ficou aliviado por que a conversa tinha tomado outro caminho – e qual foi?
- Masquilexe.
- Como?
- MASQUILEXE.
- que significa?
- Tipo move in, em inglês.
Marcelo ficou olhando perplexo, com uma interrogação estampada na testa.
-Se mudar, Marcelo Antônio, morar junto! Trocar chaves!
Fez-se aquele silêncio que parecia interminável. Aquele silêncio que acontece quando o público espera a morte de alguém na câmara de gás; que constrangeria até manequins de lojas de departamentos.
Marcelo pensou, pensou, pensou. Não poderia estragar aquele momento mágico por que passava, mas também não sabia ainda se já era a hora de morarem juntos. Aquele seria um grande passo para qualquer relação. Ele pensou na liberdade que iria deixar de usufruir, que não poderia mais ver os jogos do “Sport Clube do Recife” aos domingos, pois ela iria querer ver “Sex and the city”. Apostava que ela iria querer trocar o “Fiddy” de lugar (uma horrível imitação de gambá que ganhara de uma namorada no México e ficava bem no centro da sala, usado como apoio para cerveja). Depois pensou como seria acordar, ir tomar banho e encontrar calcinhas penduradas no registro do banheiro.
E tentou dizer: “Não, eu ainda não estou pronto. Eu gosto muito de você, mas imagino que ainda não seja a hora de morarmos juntos. Ainda não estamos preparados para atingir este nível”. Tentou. Mas só saiu um “nnnpppph”. O que deixou a Joana ainda mais hesitante.
Depois pensou como seria agradável ser despertado por carinhosos beijos. Sentir, logo pela manhã, o cheiro inebriante daquela mulher. Chegar em casa a noite, cansado do trabalho, e poder assistir toda a segunda temporada do Mcgyver, deitado no colo dela, sob seus cafunés.
E tentou dizer “tudo bem, minha querida. Isso era tudo que eu esperava ouvir de você. Vamos morar juntos. Tenho certeza que seremos muito felizes. Você gosta do Mcgyver?”. Só tentou. O que se ouviu foi: “xxxuunsz”, ou algum outro som bem indefinido.
Qualquer pessoa com uma boa percepção sentimental-fisiológica, se estivesse ali presente, poderia notar o sentimento de raiva e decepção da Joana de deslocando do coração para o intestino. Observaria a mensagem, sinapse a sinapse, sendo mandada para seu cérebro e seus olhos, em resposta, ficando avermelhados. Ela ficou olhando para ele, com cara de carrasco.
Discutiram alguns segundos com os olhos. A luta era para ver quem iria quebrar o silêncio. O Marcelo não se agüentou, e mesmo sem ter qualquer coisa para dizer...
-Huanacho. – e, estranhamente, não disse mais nada.
A Joana franziu a testa e ficou esperando ele terminar a frase.
E o Marcelo nada.
- Huanacho o que, Marcelo Antônio? – em tom um pouco mais severo.
- “Huanacho” é uma expressão que os moradores da cidade de Guanajanato usam quando se sentem nervosos demais para dizer algo.
Joana levantou-se e resvalou, não intencionalmente, no gambá, derrubando um resto de pipoca no chão. Enquanto se dirigia à cozinha, rosnou:
- “Huanacho”, Marcelo Antônio. Ninguém te entende. Não sei o que faço com você.
Na exata hora em que a Julia Roberts encara um prato de escargot, a Joana saiu da cozinha armada com soqueira, baladeira e metralhadora, e preparou-se para executá-lo – tudo em sentido figurado, claro. Fez um olhar “vocÊ não tem escapatória” e deu um ultimato no rapaz com um argumento que até hoje ele não teve coragem de compartilhar conosco.
Duas semanas depois quem chegasse na casa do Marcelo poderia encontrar um estojo de maquiagem sobre a cabeça de Fiddy ou absorventes na farmácia de seu banheiro.

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