Monday, May 21, 2007

HEDONISMO

Não sei se os Senhores tomaram conhecimento, mas a excelente Revista Piauí realiza um concurso literário onde as pessoas devem escrevem um texto encaixando uma frase aleatória indicada pelos editores da revista. A frase é “e escondeu um punhado de cânfora no tanque de sua Harley.”

Meu texto não foi aceito, por tratar de tema muito polêmico. Eis o sistema de escolha do site: “O melhor deles sairá na revista – ou seja, perdurará na língua portuguesa pela eternidade afora. À medida que as tentativas forem chegando à redação, desde que não assustem crianças, parlamentares ou a bispa Sônia, ficarão expostas à impiedade do juízo público aqui no site.”.

Não é desta vez que meu nome fica marcado para a eternidade. Prossegue um homem a procura de um sonho. Suspeito que tenha sido excluído quanto ao quesito Bispa Sônia. Permanece a minha dúvida. Segue o texto em versão quase integral, já que se é pra chocar, vamos chocar de verdade.

Hedonismo.

Ato prelúdico.

Teve de criar um atalho para se livrar das recorrentes crises psicóticas de sua Avó. Desde que começou a entender o mundo, aos quatro anos, ela o castigava, às vezes sem motivo, batendo sua cabeça contra paredes. Certa vez, o garoto atrasou-se quatro minutos para a aula de piano clássico e foi obrigado a passar um dia inteiro ajoelhado no milho.

Para lidar com aquilo, Fred tentou dar outra dimensão àquela tortura, e, como por desvio psicológico, começou a buscar barato naquelas cenas de dor. No começo foi difícil, pois ninguém, aparentemente, relaciona-se positivamente com o sofrimento.

As primeiras vezes que experimentou prazer naquela sensação, sentiu-se um doente e, depois ser agredido pela sua Avó, flagelou-se ainda mais, com auxílio de um chicote, para aprender a não fazer mais aquilo: “deleitar-se com a dor é indício de insanidade”. Tornou-se habitual sua Avó admoestá-lo, e ele, em seguida, se torturar por se sentir excitado com aquilo.

Ato Intermediário.

Fred pendeu para o masoquismo. Todas as noites descia a Augusta a procura de alguém que pudesse flagelá-lo.

Certa vez, numa destas noites mais apimentadas, Fred começou a dar tapas cada vez mais fortes numa garota já conhecida. Quanto mais aumentava a intensidade, mais a garota gritava. Dado momento, ela começou a gritar por socorro. Mas ele sentia cada vez mais tesão com o tormento alheio. Perdeu a noção do mundo com tanto prazer. Fred teve um orgasmo e desmaiou.

Acordou com muita dor nas mãos. Sangue entre os dedos.

Quando retornou à consciência, a moça estava com parte do crânio dilacerada.

O garoto horrorizou-se com o acontecido e correu para casa. Chicoteou-se novamente para aprender. Contra seu arbítrio, incorporou mais uma psicose: assassinar mulheres, espancando-as. A dor passou a ser um prazer secundário, e ele começou a experimentar uma relação esdrúxula com a morte.

Ato conclusivo.

O procedimento era sempre o mesmo: ligava para as putas masoquistas, combinava o preço do “gauge” e as levava para casa. Amordaçava-as e, para evitar gritos desnecessários, as banhava com álcool e cânfora. Alfim, ainda sob o transe de sua psicose, limpava os membros com jornais velhos; jogava o corpo num terreno abandonado, contíguo ao seu prédio, e tocava fogo no corpo. Acendia um último cigarro e deixava a fumaça esvair-se entre os dentes encardidos, enquanto dirigia sua Harley, sem nenhum destino. Este era o último momento que sua mente captava. No dia seguinte chicoteava-se num misto de punição e prazer, que, em sua cabeça, eram indissociáveis.

Certo dia a polícia foi avisada. Quando Fred notou a sua presença, entendeu que aquela cidade já era pequena para os anseios de sua mente problemática. Deu um ultimo trago em seu cigarro pós-coito, e escondeu um punhado de cânfora no tanque de sua Harley.

Meses depois, encontrou-se numa travessa da Nova Dutra uma moto jogada, e um corpo cremado.

Fred encontrou sua consagração: praticou sexo necrofílico consigo mesmo.

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