Saturday, August 18, 2007

Referencinema!

Moscow estava ainda mais fria naquele inverno. Taranta aguardava uma ligação importante. Vida ou morte. Silêncio absoluto naquela sala toda em tons pasteis, inclusive o telefone. A garota Rodriguez fumava um charuto pela metade. Estava tensa, as veias da testa saltando: a ligação também a envolvia.
Ouviam-se apenas as baforadas de charuto e as buzinas que entravam pela janela. A primeira tirou da cabeça os óculos que prendiam os longos cabelos. A segunda soltou um sorriso amarelo, e voltou a fumar.
A tensão estava em toda o ambiente quando o telefone irrompeu o silêncio. As duas se olharam firmemente, mas não esboçaram reação. Segundo toque, puseram as mãos no telefone quase simultaneamente. Taranta ordenou com os olhos que a parceira largasse.

- Alô. Sim – com a voz meio trêmula
-... (do outro lado do telefone)
-Isso.
-..
-Então o pacote foi entregue nas mãos dele?
-..
-Aguarde em sua casa. Seu presente chegará em alguns minutos.

Olharam e riram-se como se houvessem conquistado o mundo. A primeira empunhou a garrafa de vodka, deu um longo gole. Passou para a outra, que bebeu e guardou na bolsa. Uma delas vestiu os óculos. Desceram as escadas lentamente, até alcançarem a rua movimentada.
O sol estava a pino, mas só produzia claridade. Elas caminharam, talvez, duas quadras. Entraram num prédio baixo, recém restaurado, próximo à Krasnaya. Subiram dois lances de escada e entraram na primeira porta a esquerda.
O bocal estava para fora, de forma que a única iluminação do quarto era a fresta da janela onde passavam tímidos raios de sol. Um banheiro minúsculo ficava à direita de quem entrava. Nenhum outro móvel além da cama de madeira, coberta por uma colcha vermelho-sangue. E sobre ela, um homem corpulento com os cabelos muito pretos e lambidos.
O homem deixou escapar um sorriso maquiavélico e disse: “paguem o que me devem, ou...”. Mas antes de terminar a frase, as garotas já estavam desnudas. Ele estremeceu com aqueles corpos nus. “Dancem” – disse ele. As duas, parecendo surdas, apenas caminharam em sua direção e despiram-no. Uma delas beijou-o os lábios. A outra mais abaixo. Ele espremeu os olhos e soltou um urro. Os dedos do pé se contraíram. Ele se contorceu. Os pelos do tornozelo dele grudaram na colcha de chenile.
Enquanto Taranta executava um serviço manual, a outra foi ao banheiro. O homem tremia de prazer. Sorrateiramente Rodriguez saiu do banheiro e dirigiu-se aos copulantes. Carregava a pequena tesoura que o homem usava para aparar os cabelos do nariz.
Por três minutos permaneceu observando aquele ato. Parecia excitada. Colocou os óculos sobre a mesa e introduziu lentamente o instrumento contra a jugular do homem.
Ele, porém, absorto naquele momento, demorou alguns segundos para notar o acontecido. Quando abriu os olhos, já quase sem vida, pela última vez pode vê-las dançando. Viu que colcha vermelha estava ainda mais sangue.
As duas beijaram-se ardentemente por sobre aquele cadáver. Rolaram o corpo para fora da cama e ali mesmo fizeram amor, sob a vigília perdida do homem.
Olharam e riram-se como se houvessem conquistado o mundo. A primeira empunhou a garrafa de vodka, deu um longo gole. Passou para a outra, que bebeu e guardou na bolsa. Uma delas vestiu os óculos. Desceram as escadas lentamente, até alcançarem a rua movimentada.

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